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Anjo Gabriel PDF Imprimir E-mail
Escrito por Felipe Travi   
Seg, 27 de Maio de 2013 11:39

Ah, o interior. Cidades pequenas têm como característica a calmaria, a mesmice e uma espécie de tédio tão delicioso quanto os pequenos restaurantes que só os moradores locais conhecem.  E tudo era exatamente assim naquela tarde ensolarada de domingo. As crianças brincando pelas ruas, um silêncio que permitia ouvir a sinfonia dos pássaros, interrompidos apenas por alguma gargalhada aqui ou ali, e o cheiro de churrasco que o vento trazia e levava.  O mesmo vento que, de vez em quando, soprava gentilmente as folhas das árvores – talvez as únicas que realmente se mexam nestes dias. A sensação de paz era quase palpável. Quase. Naquela tarde, Gabriel se matou.

Gabriel costumava ser uma pessoa de sorriso fácil, com uma risada gostosa e um jeitinho de moleque.  Era o preferido das professoras nas primeiras séries do Ensino Fundamental, tamanha era sua educação e seu carisma. Era uma criança linda: loiro, de olhos azuis e com um sorriso que iluminava o ambiente.  Sempre teve muitos amigos mas, infelizmente, nunca os soube escolher.

A família de Gabriel passava por dificuldades financeiras quando, na sétima série, o transferiram para uma escola pública. Um prédio mal pintado em um bairro pobre da cidade, com muitos alunos e pouquíssimos professores. Por ter estudado em dois colégios, ele agora possuía dois grupos de amigos. Um deles era composto por um bando de meninos “caretas”, que jogavam futebol e brincavam de pokémon, assistiam a desenhos animados e eram, logicamente, de escola particular. Mas Gabriel fez outros amigos em sua nova escola.

Seu novo círculo de amizades possuía como característica mais forte a heterogeneidade. Alguns alunos que haviam repetido de ano, muitos mais de uma vez, eram agora colegas de Gabriel. Quando o sinal do intervalo se fazia ecoar pelos corredores da escola, saíam da sala de aula Gabriel, com seu cabelo loiro, a pele branca e 1,66m de altura, e seus mais novos amigos.  Jovens altos, com 16 ou 17 anos, que possuíam namoradas, dirigiam ilegalmente, usavam drogas e, claro, odiavam os meninos das escolas particulares. Os chamavam de "bundinhas” e faziam questão que Gabriel ouvisse.

Durante boa parte do Ensino Médio, Gabriel ficou dividido entre os dois grupos. Embora ele adorasse passar o tempo com seus amigos de infância, os “bundinhas” não possuíam a maturidade ou malícia que ele encontrara nos seus novos amigos. Enquanto uns jogavam videogame, os outros bebiam, fumavam maconha e namoravam. As duas realidades foram ficando cada vez mais distantes, e Gabriel também.

Durante os próximos dois ou três anos, ele se tornaria outra pessoa. Seguiu o exemplo de seus novos amigos e repetiu de ano algumas vezes, até desistir e largar os estudos. Sua mãe havia lhe conseguido um emprego em um escritório de advocacia, onde trabalhava como office boy. Ganhava pouco menos de mil reais por mês, mas que eram suficientes para pagar suas festas, roupas e drogas. Perambulava pelas ruas da cidade durante a madrugada, com o cabelo loiro completamente envolto por um capuz e o sorriso esquecido em alguma boca de fumo por aí. De vez em quando, encontrava um de seus amigos de infância mas evitava um diálogo mais extenso. Parecia ter vergonha de quem se tornara, como quem havia percebido que os “bundinhas” também amadureceriam, mas em seu próprio tempo, como deve ser.

Em uma dessas noites, um de seus melhores amigos saiu embriagado de uma festa e capotou o carro. Ficou em coma durante uma semana, recebendo visitas diárias de Gabriel, e veio a falecer. Neste ponto, qualquer pessoa normal ficaria de luto e evitaria o álcool ou as drogas. Mas Gabriel já não era uma pessoa normal. Estava fumando crack diariamente e sofria de uma depressão profunda, que se agravou após a morte do amigo.

Gabriel ficou desamparado. Durante sua vida inteira jamais estivera em um velório e agora, literalmente da noite para o dia, encontrava-se parado diante do cadáver de um de seus maiores companheiros. Um jovem que deixava para trás pai e mãe, algumas namoradas e pouquíssimos inimigos. Nem todas as drogas do mundo tirariam a dor de Gabriel naquele momento.

No dia seguinte, decidiu sair mais cedo do trabalho. Inventou alguma desculpa para seu chefe, pediu um adiantamento de parte do seu salário e foi embora para nunca mais voltar. Pegou todo o seu dinheiro e rumou para uma boca de fumo, gastando até seu último centavo em pedras de crack.

No caminho para a casa, passou em uma lanchonete e pediu um sanduíche. Gabriel frequentava o local semanalmente para assistir aos jogos do Internacional, seu time do coração. O dono do estabelecimento o conhecia desde os dois anos de idade, mas neste dia não o reconheceu. Aquele jovem de rosto esquelético, com olheiras profundas e olhos vermelhos não era mais aquele menino de sorriso fácil e risada gostosa que um dia conhecera. Anotou seu pedido na conta de sua mãe, embrulhou seu sanduíche em uma sacola e foi embora. E foi a última vez em que Gabriel foi visto com vida.

Trancou-se em casa durante três dias, com uma quantidade enorme de drogas e sem nenhuma forma de comunicação. Desligara o celular, não queria conversar nem com sua mãe, que viajava a trabalho. Não abriria a porta sequer para os amigos, que depois de um ou dois dias desistiram e foram procurar outro lugar para fumar.

Gabriel ficou lá, sozinho. Logo ele, que tinha tantos amigos até escolher os errados. Amarrou uma corda no teto de sua garagem e deixou este mundo que já não era o seu há muito tempo.

Hoje em dia, sua mãe possui uma ONG que ajuda jovens dependentes de drogas, em especial usuários de crack, a se reabilitarem e superarem o vício. Ajuda mais de 40 jovens e suas famílias, para que nenhum outro tenha o mesmo final trágico de seu filho.

Sobre o pai dele nunca se soube muita coisa, nem sequer esteve presente em seu velório, assim como boa parte dos seus amigos. Mas os “bundinhas” estavam lá, despedindo-se daquele velho amigo de infância. Para eles, infelizmente, Gabriel morrera muito antes de se enforcar.

Passados tantos anos, ainda é difícil não lembrar daquele menininho loiro ao transitar pelas ruas da cidade. É como se ele fosse virar a esquina a qualquer momento, em cima da bicicleta vermelha que possuía quando criança. “Vermelha porque sou do Inter”, dizia. Mas por mais que os olhos de seus amigos e familiares percorram aquelas ruas, Gabriel nunca vira a esquina.

Jamais entenderão como uma cidade pode parecer tão mais vazia apenas por uma pessoa não estar lá. Hoje em dia, só restam as lembranças e saudades daquele menino que tinha nome de anjo e resolveu se tornar um.

Última atualização em Qui, 28 de Agosto de 2014 17:53