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O sabor de um sonho PDF Imprimir E-mail
Escrito por Carolina Pascuetti   
Seg, 27 de Maio de 2013 11:34

Uma das heranças deixadas pelo pai para o filho Marcelo foi o gosto pelo empreendedorismo. Com dez anos o garoto já sabia qual profissão seguiria e que teria a própria empresa. Para qualquer criança dessa idade, a escolha pela carreira é alterada a cada novo filme ou descoberta. Ele estava determinado. Escolhera a área da comunicação por gostar de cinema, mas não sabia que essa parte dos seus planos seria alterada por uma paixão. Não é paixão comum, tem a ver com sabor, aroma e refinamento. Ele que esperava aprender sobre a profissão em Nova York, foi parar em terras europeias sem saber muito bem por onde começar.

Quando iniciou a faculdade de publicidade e propaganda, no ano de 2008, foi surpreendido ao descobrir que as aulas que mais gostava eram as de marketing, mas como entender o comportamento das pessoas se não compreendia nem o próprio? Nesse momento ele percebeu que alguma coisa havia mudado. As notas começaram a baixar e a animação foi reduzida aos esforços mínimos para passar no semestre. Tudo foi reduzido. O conhecimento sobre o que até então era uma certeza e os projetos para o futuro pareceram se desmanchar aos poucos. Cada aula e início de semana eram um peso. Um peso que ele tentava carregar toda vez que lembrava os esforços de seus pais para pagar os custos do curso. Marcelo percebeu que isso não iria mudar e que dependia dele dar um rumo diferente para a situação. Chorar não resolvia e muito menos permanecer naquele sacrifício diário. A vida estava amarga.

Ele se lembrou dos sonhos de criança e da vontade de ter sua empresa. Sabia que cinema já não era mais parte disso, mas ao mesmo tempo não sabia o que seria o melhor. Fugir. Fugir da rotina, dos hábitos e do conhecido. Fome de culturas e novas experiências, que depois veio a descobrir que não era fome, era sede. Essas ideias foram aquecidas com o convite do seu amigo e xará Marcelo N. Ter um conhecido em Londres, as despesas com moradia cortadas e a emergência de significados para suas emoções foram a deixa final para ele decidir viajar por um ano.

A primavera estava se instalando em Londres, assim como Marcelo. Os dias eram mais longos e a cidade acordava de um gélido inverno. Nos primeiros dias da viagem ele foi até a estação Euston, onde sua paixão o esperava secretamente. Não foi amor à primeira vista, talvez tenha sido encanto. Ele se encontrava na cafeteria da rede Costa Coffee com o amigo que trabalhava lá e queria apresentar o local para o guri de Porto Alegre. O mistério teve fim. O café o conquistou e a cafeteria, dentro da estação de trem da cidade, foi onde ele passou horas auxiliando o amigo barista. Ele não podia trabalhar por causa do visto, mas isso não o impediu de passar dias inteiros achando o que fazer dentro do local. Organizou, limpou e acompanhou a preparação dos cafés. Gostou tanto que passou a estudar os manuais de funcionários do lugar e buscar por mais informações sobre o assunto.

O tempo passava e o fascínio pela bebida aumentava. Marcelo matava sua sede de autoconhecimento à medida em que descobria o café, o grão e todo processo até a degustação. A viagem agora tinha um objetivo definido e ele sabia que estava na direção certa. Ele passou a visitar o maior número possível de cafeterias no tempo em que esteve por lá, diferentes cidades, gostos e cafés. A análise era feita desde o ambiente até o público e tudo era anotado em um bloquinho que ele levava a todos os lugares.

Para entender a qualidade de um bom café é preciso entender a importância da origem do grão. A forma como foi torrado também é essencial para o processo. Tem a ver com vaporizar o leite da melhor forma e extrair o espresso perfeito. Agora com experiência e conhecimento, Marcelo sabe que julgamento é questão de refinamento. As pessoas que o criticaram por abandonar a rotina brasileira e sair da zona de conforto foram aquelas que não possuíam paladar pra reconhecer a particularidade. A revelação desse prazer trouxe para a vida dele as respostas que ele buscava na sua terra de origem. Durante a viagem ele pode recuperar o ânimo pela carreia profissional. Foi dentro da estação que ele descobriu para qual trilho encaminhar seu trem. Um trem de carga, com vagões repletos de grãos que brincam com os tons de marrom.

Retornou ao Brasil com a certeza de seu futuro. Os planos eram encaminhar a faculdade, já que agora ele via um objetivo final para tudo isso, estudar sobre café, ganhar experiência e abrir seu próprio negócio. Em um almoço com seu pai, tentou convencê-lo de que os projetos eram promissores. Não foi fácil conquistar a confiança do pai, porém Marcelo o conhecia. Guardou para o momento final o melhor argumento, o do empreendedorismo, onde mostrou que o projeto tinha capacidade para lhe dar lucro e sustento. Percebeu a conquista quando viu o sorriso despreocupado do pai. O acordo entre pai e filho determinava que o investimento no negócio seria em 2013, após sua formatura.

Marcelo teve o incentivo necessário para se entregar à faculdade e tudo estava fluindo como o combinado. Durante o mês frio de junho seu pai adoeceu. Foram quatro meses percorrendo as curvas da estrada que levava em direção a Serra, para visitá-lo, que o levava a aprender a lidar com as situações críticas da doença. O câncer cerca as pessoas vinculadas a quem tem o tumor e maltrata os sentimentos, o corpo e a mente. O café, que era um hábito cultivado entre eles outrora e nos projetos de sociedade, se tornou mais uma lembrança, mais uma herança. Marcelo acredita que seu pai continua orientando-o mesmo não estando mais presente. Novamente o futuro ficou turvo para o filho, mas a marca dos ensinamentos e dos conselhos passados pelo pai permaneceu. Os planos deveriam ser remodelados, mas sem alteração do resultado. Foi essa a forma que ele encontrou para manter seu pai ligado a algo que era tão importante para eles: o acordo.

Querendo cumprir com a promessa feita ao pai, ele partiu para São Paulo, onde fez um curso de barista junior, na empresa Coffee Lab, durante as férias de verão. O Coffee Lab é conhecido pela qualidade do café, além de ser uma cafeteria é também um laboratório. Lá, um dos principais pré--requisitos é o amor pelo café, um amor que vai além da técnica e disciplina para torrar e preparar a bebida. Tem relação com dedicação e entrega total ao processo até alcançar a xícara de café ao cliente. Esses aspectos encantaram Marcelo. Naquele momento a promessa se tornara algo muito maior e importante, o objetivo dele era poder dar estabilidade não só ao futuro dele, como o de seu irmão e de sua mãe. Para aprimorar seus conhecimentos, em julho, completou mais um curso em SP, dessa vez de barista sênior. Nessa trajetória ele aprendeu e conheceu pessoas que no futuro renderiam oportunidades excelentes. Já em Porto Alegre seguiu com a faculdade, esqueceu-se do mundo e usou os objetivos profissionais como eixo para seguir com a vida.

Encontrou no trabalho de conclusão de curso um esconderijo, onde não precisava pensar nos últimos acontecimentos, só era preciso focar em seus projetos e depois adaptá-los as mudanças que o destino fez em sua vida. Ele sabia que era isso que seu pai queria, mesmo nos constantes momentos de perda da lucidez, que ele focasse no que o deixava feliz. Neste processo ele percebeu que estava pronto. Marcelo se tornara adulto, com responsabilidades e um sonho de criança pronto para sair do papel. Formou-se em 2013, como juramentista da turma, cumprindo assim, uma parte do acordo com seu pai.

No segundo dia do ano de 2013, ele enviou um pedido para trabalhar no Coffee Lab. Foi com o desejo de viver a experiência diária em um ambiente em que as pessoas compreendem e compartilham do amor pelo café que ele enviou o email. Foram quarenta minutos de espera. A resposta chegou pela gerente da empresa. Hoje é ela quem coordena Marcelo a trabalhar seus sonhos na maior cidade brasileira.

A rotina é desgastante, mas recompensadora. Abandonar mais uma vez o conforto do lar para alcançar seus próprios desejos e crenças. São aproximadamente sete pessoas dividindo o quarto de um albergue paulista. Personagens que compartilham vidas e fábulas. O bom ou mau humor diário que testam as medidas de cada um. As folgas são apenas aos domingos e são muitas as horas extras cumpridas com satisfação. O reconhecimento dessa dedicação diária é encontrado nas conversas com sua chefe, que está se tornando uma grande amiga e conselheira. O aprendizado que faz valer todo caminho percorrido até chegar ao trabalho. Por enquanto a maior parte de seu trabalho consiste em vender cursos, mostras e convencer as pessoas a entrar no mundo cafeeiro.

O resultado do acordo com seu pai está cada vez mais próximo de se tornar realidade. Quando voltar de São Paulo, no próximo ano, pretender abrir sua própria cafeteria. Os projetos de Marcelo estão passando pelo mesmo processo extenso que uma boa xícara de café leva para ser preparada. Ele está aguçando o paladar, aprendendo a lidar com o instinto empreendedor e conhecendo melhor seus limites. Nessa trajetória fica claro que a semente do empreendedorismo não caiu longe do pé. Marcelo sabe que está honrando o acordo feito com seu pai. O café foi o que o ajudou a descobrir quem realmente é e que trajeto dar à sua vida, agora essa mesma paixão o move para caminhos mais longos, que faz com que esse apetite empresarial se torne uma cafeteria ideal, na busca pelo espresso perfeito.

Última atualização em Qui, 28 de Agosto de 2014 17:49