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A Dois Estalos do Paraíso PDF Imprimir E-mail
Escrito por Jonathan Munhoz   
Sex, 24 de Maio de 2013 16:32

João acordou em meio ao burburinho. Não entendeu o que se passava. Os aparelhos, a fina cortina branca e o leito sobre o qual jazia não permitiam outra interpretação. Não era o inferno, e tampouco era o céu. Estava vivo. Assim que notou o abrir dos olhos de seu filho, Leonardo esbravejou. Beijá-lo? Abraçá-lo? Mostrar qualquer sinal de contentamento? Não. A primeira reação de seu pai foi repreendê-lo. As dores abdominais e o imediato socorro médico impediram-no de expressar sua fúria. Não adiantara de nada.
   
Seu meio-irmão, Augusto, foi quem o dissuadiu de tentar novamente. A vida não se resume à sua relação com seus pais. Tampouco está limitada ao sentimento de sua ex-namorada. Estariam juntos. Recém separado da mulher, Augusto foi obrigado a retornar à casa de sua avó, onde moram também sua mãe, sua tia, e agora João. Situação temporária, argumentou ele. “Aguente firme”, implorou, “logo sairemos desse inferno e tudo irá mudar”. “Vamos arrumar um apartamento e teremos tranquilidade”. Único são em uma família de bipolares diagnosticados, Augusto é a muleta de João. Funcionário público concursado, ele serve de exemplo para a vida que João quer levar. E João promete continuar a sua vida.
   
Nunca poderia ter previsto essa situação. Um mês antes, o seu futuro parecia brilhante. João passara no Enem, após meses de estudo, e havia se matriculado em Ciências Sociais na Faculdade Federal de Juiz de Fora. Ficaria a uma hora e meia de distância de Paula, o amor de sua vida. Aguentaram a distância – ele, em Porto Alegre, cidade onde residiu durante muitos anos, terra de seus melhores amigos e de sua psiquiatra, estudando para o vestibular; ela, em Petrópolis, onde se conheceram e moraram juntos, trabalhando como auxiliar de ortodontia. Sobreviveram inclusive ao caso de aborto, fruto de sua infidelidade com a diarista. Próximos, poderiam, em definitivo, viver como um casal. Não foi o que ocorreu. Paula, solitária pela distância e influenciada por sua família, estava em um relacionamento sério com outro. Por consideração, esperara um encontro pessoal para comunicar o fim do relacionamento. João desabou.
   
As circunstâncias não iriam melhorar. O fato de viver na pele as consequências da doença e de receber tratamento permitiam com que entendesse os hábitos anormais de seus familiares maternos. Mas não implicava em uma relação amistosa com eles. João guardava ressentimentos. Não tratada, a sua mãe não pode criá-lo. Mal conseguia cuidar de si mesma. A tarefa coube a seu pai. Contudo, essa situação também não traduziu em proximidade entre os dois. Muito pelo contrário. Pragmático ao extremo, Leonardo nunca compreendeu o seu filho. Nunca aceitou as constantes desistências de João. Medicado, a doença não servia de desculpas para os seus fracassos, entendia o pai. O apoio financeiro sempre houve. Mas o emocional era ausente. Após a notícia de que João desistiria do curso de Juiz de Fora, entraram em uma discussão. Novamente um abandono. Mais dinheiro jogado fora,  avaliava Leonardo. João, por sua vez, urrava. Não pensava nele. Pensava apenas em dinheiro. Não entendia o que Juiz de Fora representava para ele. O que era confronto verbal tomou conotação física. João agrediu Leonardo.
   
O pai resolveu romper ligações. Não mais sustentaria o filho, financeiramente ou de qualquer outro modo. João teria de deixar o seu apartamento em Petrópolis. Poderia ir para o Rio de Janeiro morar com a sua avó. Para Leonardo, não importava o destino. Que juntasse os seus pertences, queria-o fora dali. João surtou. Rumou para o banheiro, pegou a cartela de Sertralina, destacou os comprimidos e ingeriu-os de uma só vez. Era isso. Em plena fase depressiva, resolvera dar adeus à vida. Negligenciado pela mãe. Separado de seu amor. Odiado pelo pai. Quem se importava com ele? Assim, sua mãe o reconheceria. Desse modo, sua ex-namorada o carregaria consigo para sempre. Seu pai, então, passaria a amá-lo, mesmo que em memória. Teria importância por toda eternidade. Morreria. Não fosse pela empregada de Leonardo.
   
Adriana, ciente da briga anterior, escutara o destacar das pílulas e, concluindo que João tentava o suicídio, alertou Leonardo. Este conseguiu arrombar a porta e tratou de levar o único filho ao hospital Santa Teresa. Lá, os médicos, através de lavagem estomacal, salvaram a vida de João. Um mero crepitar decidira se viveria ou morreria. O peso de uma existência inteira marcada por sabores e desgostos, toda a conturbada trajetória de um rapaz de 25 anos, condenado desde o ventre a sofrer provações às quais não teve escolha, resumido à um minúsculo ruído. E, apesar da medida, nada mudou. Embora tenha retomado a relação com seu pai, a aproximação que tanto desejava não houve. Não reconquistou o amor de Paula. A insanidade mental da mãe perdura.

Todavia nem tudo é penúria na vida de João. Mantém uma relação com Augusto que não teve desde os tempos de infância. Os amigos, apesar da distância, entram em contato semanalmente para saber como está. João segue. Irá morar com seu meio-irmão – meio apenas em formalidade – no Rio de Janeiro. Vai arranjar um emprego. Pretende cursar novamente o Enem, para conseguir vaga em alguma universidade da cidade. Ainda pensa em cursar Ciências Sociais. Vê, agora, luz no fim do túnel, a qual Augusto e seus amigos farão questão de manter acesa. Retificando a sentença anteriormente escrita, quase nada mudou. A diferença é ínfima. Como um clique.


* Devido à restrição imposta pelo personagem principal da história, os nomes dos envolvidos foram alterados.

Última atualização em Qui, 28 de Agosto de 2014 17:47