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02 -September -2014 - 08:31
Minha primeira música PDF Imprimir E-mail
Escrito por Mariana Ceccon   
Sex, 18 de Maio de 2012 18:28

Certa vez, quando eu tinha recém dez anos de vida completos e cursava a 4ª série, atual 5º ano, do colégio de Ensino Fundamental Menino Deus, onde eu estudava desde o maternal, o professor que lecionava - e acredito que ainda lecione - as disciplinas de Música e Filosofia, chamado carinhosamente por alunos, funcionários e professores de Pedrão, determinou um trabalho em grupo de quatro alunos.

O professor utilizou-se do seu conhecimento sobre música e filosofia para elaborar um trabalho que unia as duas disciplinas. O trabalho era divido em duas partes, a primeira consistia em escolher uma música que relatasse alguma atitude da sociedade com qual não concordássemos e a parte final se caracterizava pela elaboração de uma paródia, ou seja, deveríamos selecionar uma música e utilizar o seu ritmo para criar uma nova versão que em sua letra abordasse algum problema social. As duas músicas deveriam ser cantadas e seriam avaliadas pelo seu conteúdo juntamente com o desempenho do grupo no momento da apresentação. O professor exigia que explorássemos nossa criatividade.

Na hora de escolher os grupos, foi nos dada a liberdade de fazermos com quem desejássemos. Optei por fazer com minhas colegas mais próximas naquela época, o que foi um grande erro. A data de entrega e apresentação do trabalho foi se aproximando, e eu me encontrava em uma péssima situação, a de ficar cobrando e lembrando do quão importante era aquela avaliação. É importante salientar que eu era uma aluna exemplar naquela época do colégio, infelizmente minha conduta escolar não se manteve sempre assim.

Cada vez mais próximo do dia fui ficando angustiada e acabei por buscar auxílio da minha mãe, que me encorajou a assumir toda a responsabilidade pelo trabalho e fazer tudo sozinha. A primeira metade foi fácil, escolhi a música “Fama”, que, na minha percepção, abordava a ambição das pessoas pelo dinheiro, que muitas vezes sobressaia em relação a outros valores da vida, como família, caráter e amor.

Concluída essa parte, eu ainda tinha o mais difícil pela frente. Foi necessário pedir socorro para minha prima, que era um pouco mais velha que eu e fazia aulas de violão. Juntas pesquisamos e escutamos diversas músicas, brincamos de fazer paródias sobre assuntos amenos, como princesas e nossas brincadeiras favoritas. A música selecionada foi “Aquarela”, do Toquinho em virtude da facilidade de adaptar novas letras ao seu ritmo. Mesmo depois de já ter mais ou menos encaminhado o trabalho, eu definitivamente empaquei. Fazer uma paródia dessa música se tornou extremamente difícil, pois nenhum tema que eu escolhia fui capaz de desenvolver da forma satisfatória. Recordo-me muito bem de que dois dias antes da entrega eu estava assistindo a algum telejornal em casa e foram noticiadas mais uma vez as atrocidades que estavam acontecendo no Oriente Médio em virtude da guerra no Iraque. Me lembro do quanto aquelas imagens me atingiram e ao ver o sofrimento daquela população e principalmente de crianças da minha idade eu não tinha mais dúvidas sobre o que a minha música iria falar.

Nunca imaginei que lembraria deste trabalho até os dias de hoje, mas, modéstia à parte, minha música foi o destaque da turma, a comoção foi geral entre professores, fiquei extremamente orgulhosa do meu trabalho. O que de fato mais marcou é que eu, mesmo muito nova e talvez justamente por isso, fui capaz de transmitir em cada palavra daquele papel a minha inconformidade com aquela situação desastrosa no exterior, literalmente escrevi o que eu estava sentindo, era perceptível que o meu maior desejo era que aquela guerra findasse. Sempre que leio essa música, que posteriormente foi publicada pelo meu professor num blog na internet, eu me recordo exatamente daquelas imagens de destruição e lembro como se fosse hoje, como se estivesse acontecendo em tempo real aquela guerra. Foi de fato uma grande experiência com a escrita.

A Guerra tem que acabar

Com uma arma qualquer um soldado destrói a esperança
Com mísseis e bombas no Iraque se tem um massacre
Vejo nas ruas crianças mutiladas pedindo ajuda
Mas não há nada que faça parar com esta luta
Se um pinguinho de sangue cai num pedacinho branco do papel
Num instante imagino quanta tristeza está lá no céu
Fico imaginando o porquê desta guerra sem fim
Se vale a pena destruir tantas vidas assim
Vamos construir um mundo cheio de amor e paz no coração
Entre as nuvens vem surgindo uma imensa luz a brilhar
É a esperança de que um dia tudo isso vai acabar
Basta crer em Deus que um dia
Isso tudo acabará
Isso tem que acabar!
Com uma arma qualquer um soldado destrói a esperança
Isso tem que acabar
Com mísseis e bombas no Iraque se tem um massacre
Isso tem que acabar
Vejo nas ruas crianças mutiladas pedindo ajuda
Isso tem que acabar...

Última atualização em Seg, 25 de Agosto de 2014 18:01