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De Eldorado para Porto Alegre PDF Imprimir E-mail
Escrito por Matheus Pandolfo   
Sex, 18 de Maio de 2012 17:45

Aos meus 12 anos uma mudança drástica ocorreu em minha vida, me mudei de Eldorado do Sul para Porto Alegre. Ainda que Eldorado do Sul seja considerado parte da região metropolitana de Porto Alegre, eu morava em um bairro mais afastado, que se assemelhava muito mais a uma cidade do interior do que a uma metrópole. Portanto, eu estava saindo de uma cidade em que eu conhecia quase todos os lugares e quase todas as pessoas pelo nome, ou, no mínimo, sabia onde elas trabalhavam, para uma cidade em que, eu constataria após minha mudança, se você é atendido pela mesma caixa de supermercado em um mês no mesmo supermercado é um recorde. Entretanto, eu não estava apenas deixando o lugar em que eu conhecia a todos e a tudo, eu estava deixando os meus amigos, minha amada (mesmo ela não sabendo disso), minha casa e lugares que me remetiam a boas lembranças, afinal tinha passado toda minha vida lá.

Mudar-me para Porto Alegre significava ter que começar tudo do zero: criar novos amigos, encontrar uma nova paixão, enfrentar vários lugares e pessoas desconhecidas, o que na minha visão de garoto tímido e inseguro representava o apocalipse. Como seria possível construir isso tudo do zero? Será que eu teria amigos? Será que alguém falaria comigo? Iriam gostar de mim?

Todas essas incertezas da mudança somadas com os questionamentos que surgem na adolescência como: “Quem sou eu?”, “O que vou ser?”, “O que pensam de mim?” e a constante preocupação de não “pagar mico” resultaram em meses de angústia e sofrimento. Como nunca fui de falar o que sinto, passar por esse processo de adaptação a minha nova realidade foi feito sozinho. Chorar escondido no armário do meu quarto se tornou rotina. Não sei precisar quanto tempo eu ficava por lá, mas, na minha lembrança, eram horas intermináveis. Eu chorava, chorava e chorava o mais baixo possível, para ninguém ouvir, mas só chorar era insuficiente, pois apenas diminuía minhas angustias temporariamente, eu não me livrava delas.

Certa vez, quando eu me deslocava ao armário para mais uma vez desabafar comigo mesmo, peguei meu estojo e meu caderno e entrei em meu armário. Entre soluços e lágrimas, meu lápis, fortemente pressionado contra a folha quase a fazendo rasgar a cada traço, escrevia no papel todo o ódio que eu sentia de Porto Alegre (por não ser como Eldorado), da nova escola (onde eu ainda não tinha encontrado um novo grande amigo) e de meus pais (por optarem mudar de cidade). Cada palavra escrita era um alivio, pois todos os sentimentos que eu guardava dentro de mim agora se exteriorizavam não em algo abstrato como a lágrima, mas em palavras que descreviam exatamente o que eu sentia.

A partir daquele dia, o caderno, o estojo e uma lanterna (para eu conseguir enxergar no escuro) passaram a me acompanhar em todas as minhas idas ao armário. Quando comecei a escrever, havia mais ideias, frases soltas, do que propriamente um texto, mas, conforme o tempo foi passando, essas ideias se transformaram em textos que acabaram por me libertar da minha própria angústia, de quem eu havia me tornado refém.

Última atualização em Seg, 25 de Agosto de 2014 18:04