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Cárcere Literário PDF Imprimir E-mail
Escrito por Valeska Linauer   
Qui, 17 de Maio de 2012 12:59

O período de alfabetização de uma criança é o botão inicial de um jogo chamado conhecimento. Contudo, cada aluno reage de forma diferente diante dessa proposta, e cada um por seus motivos. Em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, morava uma menina tagarela e curiosa, que se chamava Valeska. Estava cursando a primeira série (atual segundo ano). Dentre seus colegas, era a menor aluna.
 
Recreio de educação infantil é sempre aquela barulheira, tem crianças brincando, música alta e o sinal anunciando o intervalo. E isso nunca havia causado problema algum, mas naquela tarde, o barulho foi causador de pânico, medo e também do começo de uma história que perdura até os dias de hoje.

Uma programação especial para as crianças, uma gincana em comemoração ao dia do estudante estava prevista para o período após o recreio, o que deixou a turma entusiasmada. O alarme tocou, a professora liberou os alunos, e todos, já com suas merendas as mãos, saíam da sala, rumando ao sublime momento em que sol e imaginação tornavam o pátio, o lugar mais encantador.

Já com fome, a menina procurava seu lanche na mochila, mas não encontrava. Numa última tentativa, resolveu olhar atrás da mochila, e dessa forma, seu corpo ficou camuflado entre o material. Sem ver mais ninguém na sala, a professora desligou a luz. Quando finalmente a garotinha conseguiu achar sua merenda, tentou alertar a professora de que ainda estava ali, mas era tarde demais. Seus gritos, abafados pelo barulho do recreio, foram em vão. A sala estava vazia com a porta chaveada. Ela ficou sozinha, trancada numa sala escura.

Depois de inúmeras tentativas de fuga pela janela, e de perder a voz aos prantos clamando por socorro, cansou-se. E como se já não bastasse ficar presa, ainda havia o agravante do tempo, pois nem os alunos, nem a professora voltariam para a sala antes de a atividade acabar. Sem perspectivas de sair dali, ela começou a olhar a sua volta e pensar no que faria até a gincana terminar.
       
Naquele dia, a turma havia aprendido a juntar as primeiras letras, formando seus nomes. Sempre muito curiosa a respeito daqueles símbolos desconhecidos, que os adultos desenhavam por aí, ela fitou o quadro branco no qual a professora escrevera por alguns instantes. Achava tão mágico o momento em que o canetão o tocava e formava as mais diversas figuras! Nesse momento, um colorido no rodapé do quadro lhe chamou a atenção.  Os canetões estavam ali, aquela mágica que tanto a fascinava, ao seu alcance, bastava que ela quisesse, que suas mãos a conduziriam. E assim se fez. Foi até o quadro, e como se fosse um escape à realidade momentânea que se impunha, escreveu, letra por letra, sua primeira palavra. Aos poucos o branco do quadro foi sendo tomado pelo vermelho das letras, e a menina foi preenchendo-o, com a única palavra que sabia escrever: o seu nome.

Ao chegar na sala de aula, a professora, espantada, perguntou à menina como ela já estava ali se a porta estava chaveada? Percebendo o ocorrido, a professora tremia como vara verde, branca como folha de caderno novo. Carregou-a nos braços até a diretoria, que imediatamente informou a família de Valeska.

Esse episódio rendeu uma alfabetização complicada e fora dos padrões. A ida à escola se tornou uma árdua tarefa, pois o medo de novamente ficar trancada, era constante.  Foi necessária uma atenção especial em torno dessa aluna, que precisou inclusive frequentar um  curso de apoio para língua portuguesa e matemática. Contudo, incentivos familiares conseguiram contornar a situação e aos poucos o medo ficou esquecido.

Cerca de um ano depois, ela finalmente conseguiu aprender a ler e escrever, apesar de  atrasada perante o ritmo da turma . Mas o que não transparecia naquela época, é que o fato de ter usado a escrita como meio de fuga e desabafo, tornar-se-ia um hábito e que de um descuido momentâneo, nasceria uma paixão para a vida toda. Hoje, a escrita é mais que uma válvula de escape, é precursora da escolha profissional de Valeska, que pretende ser jornalista.

Última atualização em Seg, 25 de Agosto de 2014 18:02