Inicial Acontece no Campus Sobreviventes da Segunda Guerra Mundial compartilham experiências

24 -October -2017 - 05:46
Sobreviventes da Segunda Guerra Mundial compartilham experiências PDF Imprimir E-mail
Escrito por Marcelo Farina (3º semestre) e Marthin Manzur (1º semestre)   

“Mais do que um evento, é uma experiência”, declarou Sérgio Wollmann, Diretor do Curso de Relações Internacionais, sobre a palestra Os Sobreviventes. Com relatos emocionados, os palestrantes comoveram o público presente. O evento foi realizado na noite do dia 10 de maio, quinta-feira, no Auditório I e com transmissão simultânea para o II, contou com a participação de cinco sobreviventes da Segunda Guerra Mundial. A iniciativa faz parte do projeto Laboratório de Alteridade do curso de Relações Internacionais.

Sem Identidade

“Até hoje, eu vejo a tropa alemã marchando e entrando na minha cidade”. Foi assim que Bernard Kats começou a narrar a sua história durante o período de perseguição aos Judeus na Segunda Guerra Mundial.  Nascido em 27 de novembro de 1936, em Hengelo, na Holanda, Kats relembra, com uma voz embargada, a cena de sua mãe recebendo uma carta da Cruz Vermelha, na qual informava a morte de seu pai em um campo de concentração nazista. "Depois de ler a carta o cabelo da minha mãe embranqueceu em um dia", afirmou.

A mãe de Kats entregou os dois filhos para uma organização protestante de proteção aos perseguidos. Foi assim que ele escapou dos horrores da guerra. Apesar disso, não foi fácil sobreviver. Ele passou por 7 diferentes endereços e teve de assumir várias identidades, tudo para esconder a sua origem.“Fui doutrinado a esquecer quem eu era. Meu nome não era mais meu nome, meu sobrenome não era mais o mesmo e minha cidade não existia mais. Passei por sete famílias diferentes”, contou emocionado.

Bernard contou que sua mãe viajou 150 km de bicicleta para reencontrá-lo, entretanto este episódio foi traumatizante. “Aquela mulher que fui ensinado que não existia, cujo nome nem lembrava, apareceu e disse que era a minha mãe”, desabafou.

Mesmo passados tantos anos, a consciência de Kats não está tranquila. “O sobrevivente tem que conviver com o sentimento de culpa. Por que eu sobrevivi, enquanto milhões ao meu redor morreram? Me lembro que pedi a Deus porque não me deixou ir com meu pai”, ressaltou. A vida para quem presenciou o conflito passa a ter outro sentido. “O sobrevivente é uma pessoa para quem o passado não existe e não consegue enfrentar os dias de hoje, porque ele lembra do passado e sempre corre atrás do futuro, procurando recuperar o que não existe mais”, destacou. Bernard chegou a Porto Alegre no ano de 1970 e vive até hoje na cidade.


A Guerra ficou no passado

Max Schanzer nasceu em 8 de fevereiro de 1928, na cidade de Jaworzno, na Polônia. Entrava na Pré-Adolescência, com apenas 11 anos, quando se deu início o terrível conflito. Sua cidade foi a primeira a ser invadida pelos alemães. Hoje, ainda lembra das condições em que foi submetido nos campos de concentração. Teve de se acomodar junto de 40 mil pessoas, em ambientes que comportavam apernas 5 mil. “Fomos confinados em situações sub-humanas, vigiados pela polícia nazista. Fazia trabalhos forçados por 14 horas por dia”, recordou. Ele lembrou do número 25.861 com o qual os nazistas o marcaram. Essa passava a ser sua identidade oficial nos campos de concentração.

Em uma de suas histórias de fuga dos nazistas, ele lembrou da ocasião de quando se escondeu dentro de um bunker, enquanto os russos bombardeavam a cidade. “Os soldados alemães tinham mais medo dos russos do que dos americanos. Fui libertado com 17 anos e meus irmãos ainda estavam vivos”, afirmou Schanzer. Terminada a guerra, Max viveu mais um tempo em seu país e decidiu buscar novos rumos para sua vida, migrando para o Brasil, em 1954. “Me sinto feliz e acolhido nesse país maravilhoso”, salientou.


O esconderijo vital

O terceiro palestrante foi Johannes Melis, que também é holandês, nasceu no dia 19 de junho de 1938. A história de sua sobrevivência muito depende do heroísmo de seu pai. Foi através de esconderijos construídos pelo patriarca da família, que Johannes hoje está vivo com 74 anos e pode contar a seus descendentes tudo que presenciou em relação ao conflito. Graças a habilidade de seu pai, foram desenvolvidas escadas embutidas, armários giratórios e um esconderijo que tinha acesso sob a pia da cozinha.

Além de sua própria família, o pai de Johannes oferecia abrigos a outras famílias judias e soldados dos aliados. “O exército passou a invadir as casas. Minha mãe se fingia de doente e meu pai se escondia em um buraco”, contou. Durante esse período, aconteceu uma enchente que inundou sua casa. “A minha casa ficou sem janelas,  apenas com tábuas. O pai teve de conseguir madeiras para que não a gente afogasse”, explicou. A situação ficou ainda pior. Devido a longa duração da guerra, os suprimentos ficaram escassos.  A família começou a passar fome.

O pai tentou uma alternativa desesperada e saiu do esconderijo para buscar comida, mas foi preso pelo exército alemão.  Mesmo assim conseguiu fugir e foi salvo pelos americanos. A família passou um tempo na Bélgica e após o fim do conflito, voltaram para a Holanda, morando na mesma casa. O espírito aguerrido fez com que o patriarca da família se transformasse em um mergulhador ajudando a limpar dos destroços da Guerra. Tanto esforço foi recompensado. O pai do sobrevivente recebeu medalha de honra da rainha da Holanda por suas atitudes de solidariedade durante a grande guerra. Para esquecer o drama e recomeçar sua vida, Melis veio para o Brasil.

 

Esquerda ou direita?

Curtis Stanton foi o quarto a discursar. O sobrevivente nasceu em Hamburgo, na Alemanha, no dia 21 de agosto de 1929. Era um menino de 12 anos quando os ataques aos judeus começaram. Por isso, teve de abandonar a Alemanha. Foi levado pelas tropas nazistas, em um vagão de gado para ser deportado, junto de 80 pessoas. “Fui obrigado a trabalhar com 12 anos. Na viagem, fiquei dois dias sem comer e beber. Fui transferido para outro local, separado da mãe e do pai”. Foi levado para o hospital. Conseguiu fugir, mas na mesma noite, se deparou com a morte de seu pai. O maior trauma de sua vida foi quando foi encaminhado para o campo de concentração. Na ocasião, o exército nazista direcionava alguns prisioneiros para o lado direito e outros para o esquerdo. ”Quando chegou  minha vez, me perguntaram idade e não sei porque, respondi 17 anos e fui para a esquerda. Minha mãe foi para a direita, que depois fiquei sabendo, era a câmara de gás”, desabafou, não escondendo a tristeza.

Ele destacou o trauma de não conseguir ingerir alimentos com casca. “Cada vez os presos recebiam menos comida e tínhamos de comer até mesmo casca da batata”, explicou. Morando há 54 anos em Porto Alegre, ele mostra dificuldade em esquecer tudo o que passou e ainda mantém um forte ressentimento de seu país de origem.   

 

 A renúncia à lista de Schindler

Hertha Spier é a sobrevivente mais velha que estava presente na emocionante noite de 10 de maio de 2012. Ela tem 94 anos e nasceu em Bielsko-Biala, no antigo império austro-húngaro, atual território da Polônia. Na tentativa de escapar dos nazistas, sua família fugiu para a cidade de Cracóvia, onde acharam que estariam livres de perigo. Puro engano. O exército alemão também ocupou esse território e eles foram confinados em um gueto. Sua família era muito unida. Isso comprova o sofrimento que passou, ao assistir à morte de cada um. Seus pais foram fuzilados. Na sequência, ela recebeu a oportunidade de entrar na lista de Schindler, mas recusou para ficar junto de sua irmã, último familiar vivo. Entretanto, a apenas duas semanas do término da Guerra, a irmã de Hertha não resistiu ao tifo, uma doença que contaminou vários prisioneiros.

Hertha sobreviveu, ao ser resgatada pelos exércitos aliados, mas sua vida praticamente não tinha mais sentido. Não possuía mais nenhum ente querido vivo. Ela estava debilitada, com apenas 28 quilos, aos 26 anos, em um hospital sueco. Mal conseguiu acompanhar a libertação dos judeus. Sua esperança foi ter lembrado de uma amiga de sua irmã, que havia migrado para o Brasil. A palestrante seguiu o rumo da amiga e mudou-se para o Brasil, onde construiu uma nova vida. Hoje, ela é mãe de dois filhos e já é avó. Ela guarda marcas até hoje. A principal é a tatuagem no braço, com o número A21646.  

*Colaboraram Mariana Ceccon e Guilherme Thofehrn

Confira o reportagem do Portal de Jornalismo


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Última atualização em Qui, 17 de Julho de 2014 17:30