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A arte cotidiana de Cláudia Barbisan PDF Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Guilherme Alves   
Qui, 05 de Janeiro de 2012 13:08

“A arte se estende, ela se expande. Ela não está na obra. A arte está na vida, no cotidiano, em como se olha, apreende o mundo”. Esse é o conceito que Cláudia Barbisan, professora da ESPM-Sul, defende. Trocar umas ideias com essa guria de Porto Alegre, com visual cosmopolita e espírito apaixonado pela capital gaúcha permite exercitar um olhar diferente sobre os eventos do dia a dia.

Em que momento a arte entrou na sua vida?
Até eu me dar conta levou um tempo, eu tentei medicina, psicologia, eu fiz quatro anos, quase me formei. Até perceber que aqueles desenhos que eu fazia desde um 1 ano e 8 meses tinham muito valor para mim e a coisa que eu mais queria estava do meu lado. Havia toda essa questão, “vou ganhar dinheiro?”, e artes visuais a princípio não parecia levar a isso. Depois caiu a ficha que a gente ganha dinheiro através de um retorno, fazendo aquilo que se gosta realmente. Então fui atrás, larguei no quarto ano a faculdade de psicologia e fui fazer o Instituto de Artes na UFRGS. 

Na verdade, eu fui muito estimulada desde criança, quando eu ia na casa da minha vó - Adelaide, porque ela era pintora, professora e sempre colocava papel e tinta na minha mão. Acabei pegando o gosto pela coisa. Acabei me desviando e pensei em fazer medicina e depois seguir pela psiquiatria. Só que eu vi que o negócio era me tratar, não os outros. E, claro, exercitar a arte.

Cláudia Barbisan durante entrevista
Eu pintei, desenhei até um pouco antes da adolescência e parei um tempo. Toda essa coisa de vestibular. Depois retomei com uns vinte e poucos anos. Eu expunha meus trabalhos na Feira do Bom-Fim, no Brique. Eu desenhava mulheres nuas, em aquarela. Cheguei a assinar a Playboy para copiar as mulheres peladas dali. E era muito engraçado, porque eu vendia muito os trabalhos. As pessoas passavam e reconheciam nas telas: “Olha a Cláudia Ohana” (risos).

No fim, eu percebi que aquilo ali foi mudando meu estilo, fui mais para o abstrato e, logicamente, comecei a vender menos. Porque essas mulheres nuas vendiam muito. Eu ainda morava com minha mãe e achei que seria uma maneira de ficar independente, mas meu estilo foi mudando, não vendia mais. Nesse período comecei realmente minha formação em arte. Entendi que não é porque está vendendo que o trabalho é bom.

Você chegou a fazer cursos de pintura e desenho quando criança?
Nunca fiz. Só que quando eu comecei a levar aquilo mais a sério, fui para o Atelier da Prefeitura. Acabei fazendo 5 anos de desenho com a Professora Malu e, depois, fui para o Instituto de Artes e fiz minha formação lá. Atualmente, eu ainda tenho uma orientação, do Jailton Moreira, com quem faço viagens de arte. Ele dá aula de história da arte e orientação uma vez por mês, de trabalhos práticos. Isso é muito bom, ter alguém que te ajuda a ter distanciamento crítico do teu trabalho, que pontue coisas que talvez tu não estejas percebendo.

Falando em viagens, quando você começou a se interessar por viagens para conhecer mais sobre arte?
Bem depois, quando adolescente eu viajava para a praia. Eu pegava muito sol. Eu saí do Brasil há mais de 10 anos. Era casada na época, fomos eu e meu marido. Fomos a passeio e conheci muitos museus e galerias. Agora, já faz um tempo que pelo menos uma vez por ano saio com o grupo do Jailton (Moreira), a campo, para conhecer artistas, tendências. A última foi para conhecer mais sobre o trabalho de James Turrell, em uma vinícola em Colomé, no oeste da Argentina. Ele cria obras incríveis que jogam com o efeito e a percepção da luz. As obras se misturam com o ambiente, a gente entra naquilo.

A pequena Cláudia Barbisan pintando a cabeça de um marionete
É verdade que você já posou para o Iberê Camargo?

É, mas foi só uma tarde. Eu tenho um amigo que trabalhava há bastante tempo com ele e acompanhava a produção de suas gravuras, o Eduardo Haesbaert, que hoje trabalha na Fundação Iberê. Um belo dia ele me ligou, o atelier do Iberê era numa casa perto do Hipódromo. Ele me disse: “Claudinha, o Iberê tá precisando de uma modelo alta, magra e branca. Eu pensei em ti”. Eu estava na faculdade na época, e acabou sendo uma experiência incrível ter posado para ele. Passei toda a tarde lá. Ele desenhava compulsivamente, atendia o telefone, tomava muito café. Não cheguei a ver ele pintando. Aqueles desenhos serviriam, provavelmente, para um pintura posterior. Eram estudos que ele fazia. Fiquei sentada numa cadeira, nua. Ele era muito tranquilo. Eu estava muito segura, muito à vontade. De tempos em tempos ele parava para tomarmos um café. Eu esquecia que estava pelada, levantava e saía andando. Ele pegava o roupão e me alcançava para vestir.

Em resumo, como você definiria arte?
A arte se estende, ela se expande. Ela não está na obra. A arte está na vida, no cotidiano, em como se olha, apreende o mundo. Nas coisas que se faz, que se pensa. Ser um artista é exercitar um olhar diferente sobre esse mundo. Principalmente, para as coisas cotidianas. O artista vai lá, capta aquilo e coloca  uma lupa.

E a sua visão sobre a arte, ela mudou ao longo da vida?
Sim, e vai mudar muito ainda. Antes eu via a arte na obra. Depois, passei a perceber a arte como a relação que se tem com essa coisa, o significado que se dá. O que eu venha percebendo é isso, uma expansão. A arte está em tudo. Não sei o que eu vou achar daqui a cinco, dez anos, mas eu sinto um movimento, uma expansão na minha visão. Meu olhar sobre o mundo vem sendo transformado.

Existe algo novo na arte que chame atenção?
É difícil. A proposta de novo ficou nas vanguardas artísticas cem anos atrás. Hoje, o que se tem é reconstrução, são releituras. O que eu posso te dizer, por exemplo, é que o trabalho que eu vi do James Turrell, em Colomé, me impressionou bastante. É uma experiência corporal também, não é só olhar para aquilo, mas mergulhar no trabalho do cara. Tu mergulhas na arte e ele mergulha em ti, é muito intenso. Até a circulação sanguínea fica diferente. A emoção e a percepção do trabalho fazem da arte uma experiência diferente.

Cláudia Barbisan na montagem da exposição Vem Me Ver
Como é ensinar arte?

É complicado. Há toda a questão da técnica, mas também da criação. A técnica tu consegues ensinar de maneiras diferentes. Embora, antes de fazer seja preciso aprender a ver as coisas, entendê-las. Isso eu tento passar. Tento alimentar os alunos com um repertório legal. Fazê-los ler, ver imagens, exposições, viajar, ouvir boas músicas, ver bons filmes. Tudo isso é estímulo e alimento para a tua formação pessoal. O problema da mídia convencional é que ela mostra o igual para todos, várias versões do mesmo. Então, eu acho que os alunos precisam buscar informações diferentes. Como isso não é fácil, ajudo a cavar, mas eles precisam encontrar seus próprios caminhos.

Quando você começou a estudar, chegou a pensar que daria aulas de arte?
De jeito nenhum. Inclusive quando fiz mestrado, eu estava no meio do curso e não conseguia me imaginar professora. O que me trouxe para esse universo foi primeiro uma aproximação com meu próprio trabalho. O artista é muito isolado. Conviver com pessoas, trocar ideias é bom. Quando tu falas numa aula com trinta pessoas e faz diferença para três ou quatro isso já é muito compensador. Quando se dá aulas, a gente se obriga a fazer mais pesquisas, colocar em dia tudo que se lê e vê por aí. Para mim é um exercício de organização mental, de tudo que eu faço. A minha personalidade, eu tive que mudar bastante. Sempre fui muito tímida, não me imaginava na frente de pessoas falando. Gostaria de ser transparente um tempo atrás, dar aulas me fez ficar mais desinibida. O engraçado é que eu sempre gostei de palco, mas é diferente. Com minhas bandas, eu cantava, mas falar em pessoas prestando atenção só em ti era muito difícil. Esse processo me fez ter uma maleabilidade no trato social, cada aluno é diferente. Além disso, foi uma maneira de ficar ligada com as pessoas mais jovens, entender o que eles estão consumindo, pensando.

Você gosta muito de música. Poderia contar um pouco mais sobre sua relação com esse universo?
Eu tive várias bandas, desde os meus tempos de psicologia (risos). Objeto A, Grupo de Risco, os mesmos músicos, só trocavam os nomes. Eu era backing vocal, num ensaio eu falei para o vocalista que meu microfone estava muito ruim, para trocarmos. Acho que já era o meu inconsciente querendo dizer que eu queria ser a principal. Acabei indo cantar como vocalista na Lila Deep. Eu frequentava a noite, cantava nos bares. Um amigo me apresentou uns caras que queriam tocar. Foram lá em casa e começamos a conversar. Eles perguntaram o que eu ouvia. Na época eu curtia muito Nick Cave. Eles ficaram meio assustados, porque eles eram super rock and roll (risos), mas no fim acabou rolando a banda. 

Eu não tenho nenhum conhecimento maior em música, não sei ler partitura, nem entendo as notas, nada, mas eu acabava fazendo as letras, as músicas. Depois terminou a Lila Deep e rolou a She’s OK. Fui convidada por dois caras dos Replicantes, o Eron e o Cléber, mais o Zico, um parceiro deles. Depois disso, os Replicantes fizeram uma excursão pela Europa e nós ficamos defasados. A ideia, então, foi fazer a She’s so fake, que era a She’s Ok eletrônica. Daí convidei o Bakos para tocar nos teclados, a parte eletrônica. No fim, ficamos eu, o Dado (Kersting) e o (Fernando) Bakos.

A vocalista da banda She's OK, Cláudia Barbisan

Você continua cantando?
Não, parei. Já faz três anos que não tenho mais banda. Sempre que eu vou num show eu tenho vontade de subir no palco e roubar o microfone (risos). Permanece a vontade, mas fazer banda é quase um casamento. Chegou um momento em que eu tinha que escolher, estabelecer prioridades, para fazer uma banda tem que ter um ensaio semanal, fazer músicas, pensar em videoclipe, shows. Eu já não estava conseguindo fazer isso. 

Você cantava por prazer ou tinha um intuito mais comercial?
Só por prazer. Eu gosto de fazer as coisas que estou com vontade. Não de agradar os outros, ou de buscar esse lado mais comercial. Para mim era uma diversão, algo que me fazia bem.

O que você ouve hoje em dia?
É muito engraçado. Domingo de manhã, por exemplo, eu escuto música clássica. Escuto Bach. O que eu tenho ouvido? Nossa, sou muito de momento. Ouço até enjoar. Escuto sempre a P.J. Harvey, minha musa inspiradora, sempre. Tem uma banda que eu gosto demais, os Yeah Yeah Yeahs. Curto também Meredith Monk, Radiohead. Gosto muito de bandas com mulheres cantando. É algo de momento mesmo,  varia bastante.

O que você definiria como criatividade?
Para mim tem muito a ver com a não rigidez. De ter a coisa transformada, ter possibilidades. Criatividade tem a ver com momentos que não se espera, uma flexibilidade que se tem em contornar as situações, aprender a lidar com a vida. Se alguém te diz um não, tem que saber usar isso de uma forma criativa criando outras coisas, superando essa ideia inicial e seguindo outros caminhos. Uma maneira criativa de levar a vida é não levar nada tão a sério, ter mais humor.

Cláudia Barbisan faz uma performance no Salar Uyuni localizado no Chile
Como é o seu processo de criação?

Isso é complicado. Acho que inspiração não existe. Como dizia Picasso, a inspiração sempre me encontrou trabalhando. Essa história de não estou inspirado para trabalhar não é verdadeira. É uma visão muito romântica. Tem que trabalhar. Aliás, artista que é artista tem que trabalhar como se fosse um operário. É preciso disciplina, horário, ir para o atelier, nem que seja para varrer o lugar. É importante estar sempre próximo da arte. 

E as coisas que te agradam, o que você gosta de fazer?
Eu gosto de comer bem. Adoro sair para ir a restaurantes, comer uma boa comida, tomar um bom vinho. Gosto de exposições também. Cozinhar é outro prazer, mas não por obrigação, só quando me dá uns rompantes: “Vou cozinhar!”(risos). Fora isso, adoro ler, ir ao cinema. Já fiz até kung–fu. Tô curtindo muito passear domingo, ir na feira do Bom-Fim, ir a antiquários. Como estou reformando meu apartamento estou buscando peças, misturando o contemporâneo ao antigo. Coloquei uma banheira lá em casa, redonda, parece uma piscininha (risos). Estou curtindo muito ela, como nunca tinha tido uma, ela é a grande atração da casa. Até ler na banheira eu aprendi. É meu novo brinquedinho. Outra coisa que curto muito fazer é dançar. Mesmo sozinha em casa, ponho uma música e danço. A música me faz muita companhia. 

Gosta de crianças?
Não ao ponto de ter uma. Gosto de crianças quando não estão juntas (risos). Adoro crianças dormindo.

Gosta de animais?
Adoro bichinhos. Procuro ajudar instituições de proteção de animais. Não tolero maus-tratos. Hoje, não tenho mais, embora tenha tido muitos. Como viajo muito, não conseguiria cuidar deles como deveria, assim resolvi não tê-los. Eu ainda pretendo morar em uma casa em Ipanema, ter bichos soltos. Ainda quero fazer isso. Convivo com os animais da minha mãe, ela tem muitos gatos. 

Como é a tua relação com a família?
Ah, é ótima. Minha família é muito legal. Convivo muito com todos, vejo bastante  minha mãe, a Mac. Temos muito respeito lá em casa. Fazemos almoços familiares uma vez por mês, em que todos se encontram. Meus pais são separados, mas minha mãe e a mulher do meu pai se dão super bem. Ninguém interfere muito na vida do outro. A pergunta é sempre: "Tu está feliz assim?." Quando resolvi sair da psicologia foi só o que me perguntaram, como viram o que eu estava sentindo, me apoiaram.

Cafe Paris, obra de Cláudia Barbisan
Onde você moraria?

Eu nasci em Porto Alegre, só morei aqui. Sou bem o oposto da cigana, bem enraizada. Gosto muito daqui. Se tivesse que ir embora, eu talvez fosse para São Paulo, pensando no Brasil, mas mudaria mesmo para Paris ou Berlim. Cidades que me atraem muito. Gosto do jeito dos berlinenses, são muito simples. Fiquei muito impressionada com a organização, a limpeza. Estar na parada de ônibus, ter um cronômetro para a chegada do próximo ônibus e ele chegar na hora é demais. Além de conhecer os lugares fantásticos, culturais, que a cidade proporciona. O underground de Berlim é incrível. A comida é fantástica. Paris também, cafés, museus, galerias. O próprio inverno. Eu prefiro, porque no verão eu me desmancho.

Onde é o canto de descanso da Cláudia, o lugar para relaxar?
Na minha casa. Hoje em dia, mais especificamente o brinquedinho novo, a banheira (risos). Também gosto muito do meu atelier. Estou com ele em casa, desligo tudo não atendo telefone, fico comigo mesma. Eu sumo para o mundo.

Você gosta de ter experiências novas?
Adoro. Resolvi escalar uma vez, nessas paredes internas. Na primeira vez não me dei muito bem. Teimosa, fui uma segunda oportunidade achando que era porque eu não estava acostumada. Foi horrível de novo. Na terceira levei uma aluna e amiga, a Sofia (Cotrim) comigo e vi que ela, na primeira vez, foi tranquila. Aí eu vi que o problema era comigo, estava com muita resistência. Larguei, aquilo não era para mim. 

A experiência mais radical que eu tive foi na Bolívia, no deserto de Uyuni, que tem um salar, um território com quilômetros de sal branco e um céu azul, que tu olha 360 graus e só vê a linha do horizonte, mais nada. Fiz trabalhos de arte lá, foi muito radical. A temperatura é muito quente de dia, muito frio à noite. Dormíamos em povoados, viajávamos dez, onze horas sacolejando o tempo inteiro. Foi uma experiência extrema. Eu gosto dessas coisas, buscar sensações que nunca experimentei. Colocar o medo no bolso e ir em frente.

Planos para o futuro?
Quero pintar mais. Como meu atelier está em reformas, tenho feito trabalhos pequenos, pintado pouco. Quero fazer um doutorado, ficar um tempo fora, talvez Paris. Daqui a uns quatro anos, quem sabe, me mudar para Ipanema, mudar para uma casa, ter uns bichos,  curtir uma outra vida. É algo que não está tão longe. Também penso em dar aula de pintura, ter alunos no meu atelier.

Última atualização em Qui, 05 de Janeiro de 2012 15:04