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Manuel da Costa: um homem de caráter singular PDF Imprimir E-mail
Escrito por Desirée Ferreira   
Qui, 05 de Janeiro de 2012 12:46

Dono de uma trajetória profissional singular, Manuel da Costa, fotógrafo Coordenador do Centro de fotografia da ESPM-Sul, optou por compartilhar seus conhecimentos e experiências com aqueles que são os protagonistas de sua profissão, os alunos. Confira uma entrevista feita com o artista. 

Desirée Ferreira: Como a fotografia entrou na sua vida? Como você começou?
Manuel da Costa: Eu sempre me relacionei com o mundo através de imagens. Desde pequeno as minhas distrações maiores eram com desenhos, com atividades que envolvessem a produção de imagem. Eu naturalmente segui por esse caminho e até o início da minha juventude eu achava que ia ser artista plástico e não fotógrafo. Com doze anos fui ser aprendiz do Francisco Stockinger, aquele escultor que faleceu recentemente. Comecei a fotografar no início dos anos 70, quando ganhei uma câmera fotográfica de presente do meu irmão. Aos 17 anos já tinha meu primeiro laboratório, e daí em diante não parei mais. 

Manuel da Costa/Foto: Eduardo BiermannD. F.: Então seu irmão lhe deu a primeira câmera, mas era ele que te auxiliava, te ajudava?
M.C.: Quem me facilitou as questões técnicas e me estimulou foi o Ricardo Chaves, que já era fotógrafo na época. Em uma tarde, em uma conversa de uma hora, me explicou o funcionamento das escalas, o fotômetro, o foco e pronto. O primeiro filme que eu bati foi ele que revelou, e foi amor à primeira vista. Você vê a imagem brotar no químico, coisa que não temos na fotografia digital; foi um momento absolutamente mágico. O Kadão, como ele é mais conhecido, foi o meu maior mentor. Naquela mesma ocasião me deu um livro da Time Life, com uma coletânea de trabalhos de grandes fotógrafos, que conservo até hoje e foi muito marcante e inspirador

D.F.: Com isso você foi deixando a pintura de lado ou você mantém alguma relação?
M.C.: Nunca abandonei o desenho e a pintura. Não é muito uma questão de escolha, é uma relação que tu tens e que permanece. Visto de fora, aparentemente eu estou indo por um caminho parecido com o do Henri Cartier Bresson, que depois de velho só pintava, mas no meu caso é mais um meio a meio. Continuo desenhando e constantemente pintando, porque é uma coisa que me gratifica e está relacionada com a fotografia, no fim é tudo imagem. E o que acaba acontecendo é que aspectos da pintura passam para foto, tornando a dimensão plástica do processo mais evidente no trabalho, que é o que tem mais me interessado no momento.

D.F.: Manuel, você fez ciências da comunicação com habilitação em jornalismo? Por que você escolheu jornalismo, por que não seguiu mais nessa área?
M.C.: Eu venho de uma família com o contato muito forte com literatura, com jornalismo. Isso me induziu. No entanto, quando fui fazer o vestibular, chequei os cursos que tinham fotografia no currículo. E as opções eram o jornalismo, a arquitetura e artes plásticas.  Portanto, foi uma escolha circunstancial. Não me arrependo, gostei muito de fazer o jornalismo na UFRGS. Foi assim um pouco por gosto, um pouco de circunstancia, e acabei parando lá.

D.F.: E você nunca pensou seguir no fotojornalismo?
M.C.: Eu comecei fotografando para o Coojornal, e depois para a sucursal da Folha de São Paulo, foi essa a minha experiência como fotojornalista. Eu estava sempre com a câmera no pescoço naquela época, documentando tudo. Fotografava e depois vendia o material como freelancer para o Coojornal. Fotografava de tudo. Uma hora estava em cima de uma árvore fotografando os estudantes fugindo das tropas de choque, tanto para ter um ponto de vista privilegiado quanto para evitar levar cacetada da polícia, e logo depois estava fotografando naturezas mortas dentro do meu quarto, que funcionava como um estúdio caseiro multimídia. 

Travessuras do pequeno Manuel da Costa
D.F.: Em 1991 você teve uma experiência em que foi para uma reserva natural, por que você fez essa escola?

M.C.: Foi a experiência mais significativa que eu fiz como fotógrafo e como pessoa. Nessa época eu mantinha um estúdio atendendo agências de propaganda em Porto Alegre. Eu achava que com um QG fotográfico funcionando a todo vapor seria mais fácil conciliar o meu trabalho de pesquisa autoral com o trabalho comercial, já que o segundo cumpriria a função de financiar o primeiro. Mas isso não aconteceu, porque eu trabalhava tanto para tocar a empresa que não sobrava tempo nem energia para mais nada. Ainda assim, ia para o estúdio à noite, na maioria das vezes já alta madrugada, tentar compor as minhas naturezas mortas. Ou outras vezes pegava o carro e saía para fotografar a céu aberto, até onde a luz permitisse. E nessas idas e vindas, surgiu o desejo de fotografar no estúdio os animais e as plantas que eu encontrava pelo caminho, para poder ter mais requinte técnico. Eu me cercava de inúmeros cuidados para não machucar os insetos que eu coletava, mas mesmo assim alguns deles chegavam em Porto Alegre com alguma avaria, quando não até mesmo mortos. Isso me consternava ao extremo, porque eu estava fazendo algo na contra mão do espírito que esse trabalho preconiza, que é o respeito e a celebração da vida, do direito que os animais e as plantas têm de serem como são. Então, pra deixar tudo bem resumido, comprei um sítio no lado norte do estado, depois fui para Lisboa trabalhar um tempo como fotógrafo de publicidade, e voltei com a cabeça feita. Vendi tudo o que eu tinha e me enfiei no meio do mato por 10 anos, para ir em busca de um sentido para o meu trabalho. 

 Manuel da Costa durante aula
D.F.: Como foi essa experiência?

M.C.: Os dois primeiros anos de ocupação foram complicados, porque nada aconteceu. As fotos que eu fazia eram tecnicamente impecáveis, mas faltava algo fundamental. Então aconteceu uma coisa muito rara e mágica, eu tive uma epifania, uma das bem grandes. A partir disso eu consegui fazer uma foto, depois mais outra, até completar o ensaio. Esse fio de meada eu nunca mais larguei, é mais a forma de se posicionar do que propriamente de agir, o resto é decorrência. Na sequência eu tive a oportunidade de expor na primeira Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba e fui contemplado com o grande prêmio do evento, uma subvenção de um ano para a realização de um projeto autoral. Depois disso, segui realizando minhas pesquisas graças às bolsas e prêmios que fui obtendo ao longo dos cinco anos subsequentes. Com isso pude montar um corpo de obra e ir para nova York, buscando novas perspectivas de mercado. Só que lá eu tive uma epifania às avessas, me dei conta que, depois das conquistas propiciadas pela experiência vivida no mato, eu não tinha mais encaixe nem conexão com o mercado de arte. Então me retirei.

D.F.: Como você resolveu ser professor?
M.C.: Eu já tinha alguma experiência como professor antes de vir para a ESPM, o que foi sempre muito gratificante para mim. Nesse intercâmbio entre o professor e o aluno ambos se beneficiam. O professor aprende tanto quanto o aluno, às vezes até mais. É algo que alimenta o olhar da gente, que repercute positivamente no trabalho. É bom para a alma. Hoje, eu me sinto bem mais integrado e aberto ao mundo graças ao ensino.

Manuel da Costa no estúdio de foto da ESPM-Sul

D.F.: Você acha que seus trabalhos artísticos autorais refletiam sua personalidade?

M.C.: Eu acho que eles sempre denotaram, talvez agora um pouco menos, o meu lado obsessivo. Sou obcecado pelo detalhe, pela qualidade técnica. Porque o que me fascina muito na foto é o poder que ela tem de mostrar coisas que a gente não vê normalmente, essa possibilidade de gerar imagens com um grau de nitidez e de precisão que a visão desarmada não tem. Isso me fascina, ver o mundo com mais intensidade, com um realismo exacerbado. No entanto, tenho estado pouquinho mais solto a esse respeito, ando me ligando em outras coisas além da precisão técnica, como as possibilidades plásticas das fotos feitas com telefones celulares, por exemplo. 

D.F.: Como você era quando criança?
M.C.: Eu era extremamente tímido. Ainda sou. Só que agora eu disfarço um pouquinho melhor. É uma característica minha, eu era e continuo sendo ensimesmado e reservado.

D.F.: E o que você acha da era digital? 
M.C.: Acho uma dádiva. Considero o ambiente digital, sobretudo a internet, um grande suporte, uma grande plataforma para o artista hoje. Não é que a gente precise abdicar do detalhe fino e da presença física, isso corre em paralelo. Mas o grau de liberdade que a tecnologia digital te dá, a democratização do acesso e do juízo sobre o que é produzido, o poder que o internauta tem de validar ou descartar as coisas que acessa, isso é absolutamente extraordinário e libertário. É nisso que eu estou mais ligado agora. 

Trabalhos fotográficos de Manuel da Costa

Última atualização em Qui, 05 de Janeiro de 2012 15:44