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Lá na curva o que é que vem? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Danilo Pedrazza   
Qua, 30 de Novembro de 2011 13:58

Poucas pessoas que são do Rio Grande do Sul sabem que a maior Avenida do Estado é a Protásio Alves, com um pouco mais de 12 quilômetros de extensão. Se fizéssemos uma pesquisa, os prováveis resultados seriam a Avenida Ipiranga ou a Avenida Bento Gonçalves ou, até mesmo, a Avenida Nilo Peçanha. Não que a Protásio não seja lembrada, mas o que poucos sabem é que, quando cruza com a Avenida Manuel Elias, ainda continua sendo Protásio Alves. Pergunte a alguns moradores do centro da capital, por exemplo, será que algum deles sabia disso? O que será que tem depois da Manuel Elias? Ainda assim, alguns podem perguntar qual é a Avenida Manuel Elias, ela é a Avenida da FAPA. Sendo assim, até pode ser que se obtenha um resultado melhor. Mas não estamos aqui para falar da FAPA, nem mesmo da Manuel Elias, e sim da Protásio. Onde a maior avenida do Estado nos leva após a sua rótula com a Avenida Manuel Elias?

Logo que passamos a rótula, já sentimos falta de uma visão agradável de ambientes luxuosos e bonitos que víamos antes, chegando assim a um bairro que poucos conhecem, mas que tem um grande número de moradores, em torno de 21 mil. Por lá, apenas uma linha de ônibus passa: Passo Dorneles é o nome do ônibus que faz a ligação bairro-centro, e ele nos leva para dentro desse bairro desconhecido. Ao entrar no bairro já se notam a pobreza e a tristeza nos olhos de moradores carentes, sem uma condição de vida básica e agradável. É fácil para nós imaginarmos isso, mas é difícil viver isso.

O bairro fica localizado na zona norte da capital gaúcha, foi criado pela Lei nº 8258, de 22 de dezembro de 1998. O bairro, que se chama Mario Quintana em homenagem ao poeta que faleceu quatro anos antes de sua criação, junta as vilas Chácara da Fumaça, Valneri Antunes, Safira Velha, Safira Nova, Batista Flores, Venceslau Fontoura, Timbaúva e Passo Dorneles, para se tornar apenas um bairro só, porém é conhecido carinhosamente pelos seus moradores como “Vila Safira”.

A Escola Mariz e Barrros fica localizada na Vila Safira
Ao caminharmos pela avenida principal do bairro, a Avenida Delegado Ely Corrêa Prado, chegaremos ao número 915, onde se encontra a Escola Estadual de Ensino Médio Mariz e Barros, única escola do bairro com ensino médio. A professora Odete Andres Mendes, que dá aula de ciências e química do Ensino Fundamental, trabalha na escola há 27 anos. “Quando eu cheguei aqui, só se chamava Vila Safira, depois que o Mario Quintana morreu não demorou muito e mudaram o nome do bairro”. E ainda fala sobre as mudanças do bairro em relação à escola. “O que mudou no daquela época para os dias de hoje é que possuímos asfalto na frente da escola, porque antes convivíamos com muito pó e barro”. A professora fala ainda que a escola, que antes só tinha até a oitava série, agora oferece o Ensino Médio, ajudando os moradores a terem uma formação.

“A escola tem quarenta e nove anos, o número de alunos quase que dobrou e o de professores triplicou nesse tempo em que eu estou aqui”. A respeito do nome do bairro, a professora tem a sua tese: “Pelo o que me lembro, os moradores pediram para trocar o nome, não sei como funciona o negócio com a prefeitura, mas eles queriam, para colocar um nome só em todas as vilas, e ainda assim homenagear o poeta”. E ainda reclama a respeito do transporte “Eu acho que a única coisa que poderia melhorar é o transporte, só tem uma linha de ônibus que passa por aqui, eu só posso pegar essa para vir e ir para o centro, é horrível, não existe uma concorrência nesse sentido, é ruim, acaba que os ônibus não são bons, também são muito cheios e o espaço de tempo entre eles é muito demorado, normalmente meia hora”.

A professora está certa nesse ponto, pois o ônibus é ruim, sempre muito cheio, quando sai da vila em direção ao centro já está lotado. A viagem é muito comprida, tem uma duração de mais de uma hora entre a vila e o centro da capital.

A moradora Eliani Silveira mudou-se para a vila há dezesseis anos e fala: “Morava em Capão da Canoa, vim para cá por causa do meu pai, ele tinha câncer, vim cuidar dele”. E sobre a violência, a moradora tem um pensamento positivo, falando que a polícia está mais presente no bairro. “Nesses 16 anos nunca vi um tiroteio, é claro, eu já escutei os tiros, mas ver, ver, eu nunca vi nenhum” –  conta com tranquilidade a moradora. Eliani fala que não gostaria de sair do bairro, pois gosta de lá, já fixou suas raízes e as de sua família.

Eliani pareceu muito contente em relação ao seu bairro querido, parece não ter se arrependido de ter se mudado. Seu pai já faleceu, porém as lembranças boas são as que ficaram na memória.

Outra moradora é Ana Elise Schroeder Lerner, que vive no bairro há quase 28 anos. “Minha mãe já morava aqui, e eu vim morar com ela, no pátio da casa dela. Quando eu vim era puro mato, estrada de chão, não tinha nem um posto da saúde, a polícia nem sabia que existíamos, não tinha mercado, apenas armazéns de esquina”. Hoje, o bairro conta com um posto de saúde, que fica localizado ao lado da escola, e um posto da polícia a três quadras. “Porém a violência aumentou, não tínhamos dinheiro para comprar um ventilador e dormíamos tranquilos com a janela aberta; agora, não se pode fazer isso sem sentir medo, as brigas das gangues por droga e território são grandes aqui na vila”.

A moradora conta que sua mãe já morou em várias regiões da cidade, mas só se fixou no bairro, onde ficará a vida toda. Sobre sua relação com o bairro, Ana ainda fala “Gosto do bairro, meus filhos todos estudaram e se formaram aqui na escola, os criei aqui nessas ruas, todos já nasceram aqui”. Sobre a questão do nome de seu bairro, a moradora comenta que é uma confusão: “Sabe, às vezes, chegam algumas correspondências lá em casa que em diz que o bairro é Mario Quintana, outras chegam como Safira”. E ainda fala: “Hoje em dia existe o comércio aqui, o que não existia antigamente, então, ali, um pouco mais para cima da escola, perto do supermercado, tem a farmácia e a ferragem, é como se fosse um minishopping. Ainda falta uma lotérica, mas seria perigoso, né?”- conclui a moradora, que gosta de apostar na loteria.

Ana Elise foi a moradora mais entusiasmada a dar entrevistas, falou com orgulho do bairro, mesmo falando das coisas ruins dele, pois, em um bairro de periferia, o que mais existe são problemas.

As três entrevistadas veem mudanças positivas no bairro, porém não deixando de lado as negativas. A história do bairro se dá de uma forma muito lenta, pois  ele existe há muito tempo e somente há pouco foi habitado, está crescendo e tem muitas chances de continuar nesse ritmo, tudo só depende do governo e dos seus moradores.

A diretora da Escola Mariz e Barros tenta ajudar o bairro a crescer, promovendo atividades diferentes para a escola, e assim envolvendo todo o bairro. A comunidade carente se apegou muito a ela, que faz o seu trabalho com muito amor e dedicação.

A vila que é bairro, ou o bairro que é vila? Os moradores têm um apego especial por esse local, porque, quando se entra, nele é como se entrasse numa nova cidade: lá eles vivem como uma cidade do interior, todos se conhecem, todos se falam e têm sua vida rotineira, com suas dificuldades, é claro, um pouco mais dificuldades do que em outros bairros da capital.

Tenho uma relação muito indireta com este bairro, pois minha mãe é a diretora da escola. Enquanto meus colegas queriam abordaram bairros populares e tradicionais, escolhi um desafio: ver um bairro pouco conhecido do público, cuja história não está bem clara e sobre a qual as pessoas não sabem quase nada ou nada. Minha mãe trabalha há seis anos nessa escola, e alcançou a direção dela por seu carisma e afeto. No início, fiquei com medo que ela fosse para lá todas as noites por causa do perigo, mas daí vi o quanto ela é amada por aquela população carente de atenção.

Minha mãe ama trabalhar lá, ama fazer o bem para as pessoas, é muito amada na comunidade toda. Penso que ela está fazendo algo pela comunidade, mas a comunidade está fazendo algo maior por ela: transformando-a numa pessoa melhor. Se todos tivessem isso, as comunidades pobres de todas as grandes cidades estariam melhores, com mais apoio e atenção. Penso que até os índices de violência e de drogas diminuiriam.

O bairro merece nossos olhares não apenas pelos seus pontos negativos, e sim porque, se olharmos atentamente para ele, conseguiremos ver o potencial de uma comunidade carente que se chama de sortuda apenas por estar lá.

Última atualização em Qua, 30 de Novembro de 2011 14:06