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Coragem de viver PDF Imprimir E-mail
Escrito por Tatiana Reckziegel   
Seg, 10 de Outubro de 2011 18:37

Cheguei à Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, mas, desta vez, entrei por aquelas portas com um olhar diferente. Sou voluntária do projeto Vida Urgente desde 2008, conheço bem aquela casa no bairro Menino Deus e sempre admirei Diza Gonzaga, a mulher corajosa que ousou falar de comportamento no trânsito quando ninguém mais o fazia. Sempre muito presente nas ações da Fundação, Diza faz questão de participar do máximo de atividades possível e ter um contato extremamente próximo com os voluntários que, como ela sempre diz, são a alma do projeto. Enquanto aguardo para ser recebida, ela sai de sua sala contando histórias para outra jornalista e mostrando com gosto cada campanha que realizaram, cada foto de ação, narrando a trajetória de cada voluntário de 15 anos atrás. Está tudo registrado com orgulho na memória dessa mãe, que diz sentir como se seu filho Thiago – falecido em um acidente de carro em 20 de maio de 1995 – vivesse através do Vida Urgente.

Após despedir-se da jornalista, Diza foi dar uma palavrinha no encerramento de uma palestra que estava ocorrendo em um dos espaços da Fundação. Ao sentar-se comigo, ela começou seu relato falando sobre sua infância de menina do interior com seis irmãos. Nascida em Santiago, com meses foi pra Vacaria, onde brincava de perna-de-pau, corria e subia em árvore. Aos nove anos, mudou-se para Porto Alegre e teve que adaptar-se, saindo de uma casa com pátio e deixando para trás toda a liberdade que uma cidade pequena possibilita, para morar em um prédio com porteiro – típico da Capital. Em Porto Alegre, Diza construiu sua vida e cedo conheceu Régis, o professor de matemática por quem apaixonou-se e com quem é casada até hoje.

Mãe de seis filhos – três de sangue e três de coração –, ela diz que por vezes desconfiava de como eles eram uma família feliz e sabiam disso. “Nossos amigos brincavam que nós éramos tipo família Buscapé, que viajava sempre com toda a filharada”, conta Diza. Quando questiono sobre como surgiu a ideia de adotar, ela relata que nada foi planejado. Gerson, que viria a ser um de seus filhos adotivos, estava na creche da antiga FEBEM – que se encontrava em greve –, e ela levou Thiago, seu filho mais novo, para ajudar a cuidar dos bebês. Depois do fim da greve, ela conta que Thiago ficava triste pensando no garotinho de olhos grandes da creche que só queria ficar com ele e insistiu para que adotassem o menino. “Por ter filhos adotivos, eu me sinto uma mulher mais completa que qualquer outra. Eu tenho a sensação de ser mãe e ser pai. Pai pega o filho prontinho e mãe tem a gestação, parto, todas as mudanças hormonais e tal”, afirma Diza.

Pergunto como era sua relação com Thiago, e ela descreve em uma palavra, intensa. Para Diza, nenhuma mãe gosta igualmente de todos os filhos, pois cada um é diferente e especial, e Thiago tinha muita afinidade com a mãe, até por seu temperamento. Ela contou que, em uma ocasião, levou o filho de carro até Caxias, só para assistir ao jogo do Grêmio, em pleno inverno. A neblina não permitiu que voltassem, então dormiram em um hotel por lá. “Era uma relação tão intensa que não me deixou a culpa de que podia ter feito mais, eu fiz até loucuras”, fala Diza.

Da dor pela morte desse filho tão amado, nasceu um projeto inspirado na vida. “O Vida Urgente nasceu, literalmente, quando eu recolhi o Thiago no asfalto. Era o que eu dizia – Vida Urgente – o tempo todo. Eu não chorava, não gritava, só dizia: Vida Urgente, eu tenho que fazer alguma coisa, não é possível! O Thiago lindo que eu tinha levado não voltou”, lembra Diza. Ela conta que, passados alguns dias do acidente, começou a escrever o livro “Thiago Gonzaga, histórias de uma vida urgente” e a planejar as primeiras ações em um caderninho. Na época, tudo foi pensado para envolver os amigos de Thiago, ela não imaginava a dimensão que essa ideia poderia ter. “Logo eu me dei conta que a questão do trânsito não era uma questão de sinalização. O Thiago não morreu por desconhecer a sinalização. As pessoas morrem por causa de comportamento, acham que podem correr, que são imortais”, conta ela com uma verdadeira gana por salvar vidas. Na época, quase nada era debatido a respeito do assunto, ninguém falava sequer sobre os perigos de misturar bebida e direção.   

“As pessoas começaram a acreditar, talvez porque a gente fale de uma forma verdadeira, porque não nasceu em uma prancheta de marketing. Eu não quero me candidatar a nada, preferia mil vezes ser conhecida como a mulher do Régis, ou lá no meio dos meus arquitetos, e ter meu Thiago de volta”, conclui Diza em sua sala abarrotada de prêmios pelo trabalho realizado com o Vida Urgente. A Fundação Thiago de Moraes Gonzaga conquistou credibilidade e foi expandindo seu público, que passou dos jovens para todas as gerações. “Eu fui me dando conta de que os Thiagos e as Thiagas eram formados por pessoas mais velhas. Por outro lado, os pequenos educam; eles são capazes de chamar atenção dos pais”, explica Diza. Seu primeiro convite para conversar com crianças só foi aceito porque partiu da antiga creche do Thiago. Ela conta que não sabia como conversar com os pequenos.

Quando pergunto sobre a experiência de ser avó, ela relata com um sorriso que o nascimento de sua primeira neta foi uma das coisas mais lindas que já aconteceu em sua vida. “Eu estava a caminho do hospital, quando peguei a Independência e me bateu uma angústia, comecei a chorar. Me lembrei daquele trajeto que eu fiz quando eu perdi o Thiago, foi o mesmo trajeto, no mesmo horário. Mas imediatamente eu pensei: não, Diza, é o contrário daquilo que aconteceu, agora tu vais para a vida. Foi uma coisa mágica que só eu sei”, lembra Diza com emoção. A Júlia, sua primeira neta, trouxe alegria para uma família que continuava mutilada.

Certos sentimentos precisam ser revirados constantemente por Diza. “No começo, eu acho que eu fazia até um personagem, os jornalistas chegavam com o microfone e diziam: como foi o acidente do seu filho? Mas eu nunca expus, nunca contei como foi. Eu sempre dizia: o Vida Urgente existe para não ter mais Thiagos. Eu respondia o que eu queria, criei mecanismos para me proteger. Eu também não queria envergonhar meus filhos, chorando como uma mulher desesperada. O Vida Urgente é para ser alegre, com vida. Se chorar trouxesse o Thiago de volta, eu estaria fazendo a campanha do choro, mas como não tem jeito, eu quero salvar as Tatianas, os Rodrigos que estão aí”, afirma ela, que considera o tempo que dedica à Fundação uma maneira de manter a história do Thiago viva por aí.

Última atualização em Ter, 18 de Outubro de 2011 16:02