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Um guitarrista, apenas PDF Imprimir E-mail
Escrito por Renata de Medeiros   
Seg, 10 de Outubro de 2011 18:35

Barba e cabelos compridos talvez fossem as características mais marcantes dele não fosse um detalhe: o sorriso. Foi assim, sorrindo, que Daniel Jeffman, guitarrista da banda Reação em Cadeia, conduziu a conversa que durou uma tarde, embora o tempo nem parecesse ter passado.

Guitarrista da banda há 11 anos, o músico conta que a vontade de tocar surgiu quando seu irmão ia jogar tênis e deixava seu violão em casa. E, com 13 anos, despertou o interesse que, anos depois e até hoje, seria sua profissão. “Primeiro apareceu violão lá em casa. Meu irmão começou a tocar, quando ele ia jogar tênis, eu olhava as revistinhas que ensinavam como fazer pra tocar. Aí que eu vi que era barbada e as musicas que eu conhecia, eu tentava” disse, esbanjando a facilidade que teve em aprender os primeiros acordes.

Apesar de já ter se interessado pelo instrumento, foi seu irmão que, no natal de 1993, ganhou uma guitarra que, assim como o violão, era mais utilizada por Daniel do que pelo seu próprio dono. Com um ar nostálgico, lembra que a distorção, que é um dos efeitos de guitarra típicos do rock, já o encantava: "Eu ligava no 3 em 1 lá em casa e, como esses aparelhos não são feitos pra plugar a guitarra, dava uma distorçãozinha... Eu adorava isso”.

Com 14 anos, Daniel foi presenteado por sua avó com sua primeira guitarra, o que ele deixa registrado nos agradecimentos de cada álbum lançado. Um ano depois, a ideia de montar uma banda atraiu a ele e a mais alguns amigos, porém, nunca fizeram sequer um ensaio, pois não conseguiram, em nenhuma ocasião, reunir todos os integrantes do grupo. Apesar da primeira tentativa não ter vingado, aos 19 anos, já na banda Êxtase, Daniel conheceu Jonathan Correa, que o convidou, juntamente com o baterista da banda, Nico, para gravarem algumas músicas.

Em meados de 1999, começaram os ensaios da banda que, depois de sua terceira música ensaiada, foi denominada de Reação em Cadeia: “A gente gravou três músicas: Anjos terrestres, Minha vida e Reação em Cadeia. Foi daí que surgiu o nome da banda... Normalmente as bandas escolhem um nome e depois compõem uma música com ele, mas nós fizemos o contrário. Primeiro surgiu a música e depois o nome da banda”. O primeiro álbum, o Neural, foi lançado em 2002.

Daniel, que passou sua juventude ouvindo sons pesados, como punk e thrash, e tinha como bandas preferidas Ratos do Porão, Sepultura e Slayer, agora curte o pop com influência de blues de John Mayer, o clássico funk soul da Tower of Power e o pop rock atual da banda gaúcha Tópaz. Em casa, com sua guitarra, prefere deixar as músicas da Reação em Cadeia de lado e tocar blues e músicas da banda Foo Fighters. Além disso, todas as segundas-feiras joga futebol com seus amigos de Novo Hamburgo, cidade onde foi morar quando completou três anos de idade.

Quando tinha 10 anos, descobriu que tinha diabetes e “comia só arroz no almoço, uns risoles que a vizinha fazia e, de tarde, bolachinha recheada”. Hoje, os gostos são outros. Comida mexicana e saladas com vários temperos são as comidas prediletas do guitarrista, que sempre está controlando sua glicose, pois, quando está desregulada, rende várias histórias inusitadas: “Uma vez, eu achei que estava bem e fui andando para minha casa, quando vi, já estava caminhando que nem o Michel Jackson quando faz o moonwalker e despenquei na frente do McDonalds. Tive que ligar pra minha mulher, e ela ria de mim, dizendo que não ia buscar um louco atirado na frente do Mc”. O resultado de suas crises, segundo ele, é que as pessoas com quem convive sempre têm um docinho para oferecer quando sua glicose está baixa.

O músico, que diz não gostar de se definir, acredita que o que marca sua personalidade seja a espontaneidade: “Eu não quero agradar. Se me perguntam se tá bonito e tá feio, eu digo que tá feio. Se tá gordo, também falo... Essa coisa minha de sempre falar a verdade me atrapalha às vezes, porque tem pessoas que interpretam mal isso e acham que eu digo coisas com maldade, mas só sou sincero”. Também afirma que não é muito difícil encontrar coisas de que ele não goste: “Na verdade, eu reclamo de tudo, mas eu reclamo dando risada, porque adoro que as coisas não sejam como eu espero”.

Apesar de ter gostado bastante de ter viajado para lugares como Foz do Iguaçu e Mato Grosso, confessa que visitar litoral não lhe agrada muito, pois “é sujo, faz muito calor e o vento incomoda”. Porém, a música está presente em todos os momentos de seu dia e é capaz de tornar qualquer lugar tolerável, se estiver ouvindo os sons que curte: “Eu ouço música estendendo roupa, tomando banho, viajando, andando na rua. Sempre. Adoro ir ao banco pra ficar na fila vendo o movimento e escutando música”, falou, rindo.

O único emprego que Daniel teve antes de se tornar guitarrista da Reação em Cadeia foi na biblioteca do colégio onde sua mãe trabalhava, mas, quando era pequeno, o que o atraía não eram as cordas das guitarras, mas sim os produtos que sua mãe tinha em casa: “Eu vivia tacando fogo nas plantas da minha mãe. Eu adorava brincar com fósforos, daí pegava uns produtos de limpeza, passava nas coisas, misturava e depois colocava fogo. Eu achava que era um químico, decerto”.

Sobre uma possível troca de profissão ou de banda, diz: “Eu não vou tocar alguma coisa pra ganhar dinheiro. Eu vou tocar uma coisa que seja boa”. Além disso, não se imagina fazendo faculdade, mesmo que seja de música, pois “a música não tem fórmula, não é como matemática que tenha uma lei que diga como se faz. Tu podes estar fazendo tudo errado, mas se fizer sentido e tiver sentimento, é música”.

Última atualização em Ter, 18 de Outubro de 2011 15:42