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Entre um mate e outro PDF Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Guilherme Alves   
Seg, 10 de Outubro de 2011 18:27

Um bom bate-papo. É o que se tem ao conversar com o repórter Carlos Wagner. A conversa flui, os assuntos vão brotando e as histórias ganhando forma. Entre uma tragada no chimarrão e outra, ele conta um pouco de seus quase 30 anos de experiência só no jornal Zero Hora.

“O que me levou ao jornalismo foi o egoísmo, eu queria falar e ser ouvido”, explica Wagner. Ao falar sobre a profissão, ele relata sobre a proximidade que deve ser gerada com as pessoas para deixá-las à vontade. “As entrevistas devem correr da forma mais natural e transparente possível, como numa conversa entre compadres”, comenta com seu jeito de amigo que passou para tomar um mate.

Nascido no interior do estado, em Santa Cruz do Sul, em 21 de setembro de 1950, Wagner veio para a capital em busca de emprego aos 18 anos. “Vivia pra lá e pra cá, fazendo de tudo um pouco”. Em 1975 entrou para a faculdade de jornalismo da UFRGS, mas a história não termina aí. Foram oito anos até se formar. “Os professores faziam a chamada num bar, a churrascaria Santa Helena, ali perto da UFRGS”, lembra o repórter. “Era o final dos anos 1970, o embate de ideias era muito grande. O país estava se preparando para reconstruir sua democracia, havia muito a se discutir e esperar”, relata sobre seu período como estudante. “Hoje as pessoas têm outros interesses, o mundo está diferente”, completa.

Seu primeiro emprego como estudante de jornalismo foi na Coojornal, a Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre. Como de costume, fez de tudo um pouco. “Comecei só datilografando. A conversa era boa, a comida era boa, fui ficando”. Segundo Wagner, foi na Coojornal que aprendeu o que é ser repórter. “Eu venho de uma família pobre, e o jornalismo pra mim é um campo democrático em que o que vale são tuas ideias, em que é possível progredir por elas. No jornalismo só se  depende do que se tem dentro da cabeça, foi por isso que eu escolhi ser repórter, não jornalista, mas repórter”.
Passados quatro anos na cooperativa, foi trabalhar em um jornal no interior do Estado, em Carazinho, direcionado a campesinos. “Foi um tempo em que aprendi muito, que senti o quanto nós, repórteres, estamos próximos das pessoas. No dia após a publicação de uma matéria, as pessoas tiram satisfação na rua sobre o que foi escrito”, conta sobre começar a carreira por um jornal menor em uma cidade pequena.

Wagner passou um ano no interior, o que foi uma grande experiência, pois pela primeira vez atuava na redação de um jornal. “O jornalismo diário te ‘tempera’ para as grandes reportagens”. Para o jornalista, o dia a dia de um repórter, o convívio com gente e a troca de ideias é fundamental para a sua formação. “Se o cara quer ser bom, não pode ficar fechado na redação. A rua e a estrada são a melhor escola”.

Após um ano, voltou para a capital gaúcha e então trabalhou como free-lancer até 1983, ano em que se graduou. Seu período no interior o fez aprender mais sobre a profissão, principalmente a entrevistar, porque, segundo ele, “escrever todo mundo sabe, para isso se faz a faculdade, mas entrevistar, saber apurar uma matéria e conversar com as pessoas é o que diferencia o repórter. O fato em si não basta, o jornalista precisa farejar as conexões, desdobramentos e relações”.

Em 1983 entrou para a Zero Hora, veículo em que trabalha até hoje. Tem diversas reportagens especiais premiadas. Wagner lembra sua origem humilde, ao reconhecer a importância dos prêmios ganhos. “Reconhecimento é importante, prêmios são importantes, porque quando tu vens de uma origem pobre, tu és um empreendedor de ti mesmo, tu te fazes”.

Entre os maiores prêmios que Wagner recebeu está o Prêmio de Reportagem da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), em 1992, com a reportagem “Meninas Prostitutas”, em parceria com o seu colega Nilson Mariano. Em 1998, ganhou o prêmio Esso Região Sul com a reportagem “Fronteira do Crime”, em parceria com Nilson Mariano e Humberto Trezzi. Já em 2003, venceu o prêmio Embratel de Reportagem Região Sul, com a matéria “País-Bandido”.

O repórter já publicou oito livros, a maioria derivado de suas reportagens especiais. “Já aconteceu de ficar um ano investigando um assunto, chegar e dizer para o editor que não tenho nada”. Para ele, a profissão de repórter é uma aposta. “Tenho 50% de chance de dar certo e 50% de chance de dar errado. Aposto na ideia e busco que dê certo”, afirma. Outro fator relevante é saber explicar como se dará o trabalho. “Não basta apenas uma boa ideia. Tu tens que ter toda uma explicação logística do que tu vais fazer na matéria”.

Uma reportagem bastante lembrada de Wagner é a série “Brasil de Bombachas”. Em 1995, ele percorreu mais de 30 mil quilômetros, visitando diversas cidades do Brasil e de países vizinhos, para contar a história dos gaúchos que deixaram o Rio Grande do Sul rumo a terras mais ao norte. “O sentimento de fronteira que o gaúcho tem o ajudou a brigar por terra”, explica sobre o caráter desbravador dos sulistas.

Em 2011, Wagner refez a mesma trajetória. “Nestes 16 anos, as coisas mudaram, começando pela tecnologia. Lembro que, em 1995, era preciso parar em um orelhão na beira da estrada e ligar para a redação. Na época, a cobertura das antenas de celulares era pequena, e o preço da ligação, um absurdo. Hoje, viajamos com seis aparelhos celulares, dois computadores conectados à internet e um sistema de rastreamento por satélite. A tecnologia está aí e precisamos saber usá-la”.
Ele enfatiza que as novidades tecnológicas são importantes. “O jornalista não pode deixá-las de lado. O que vier para facilitar a vida e melhorar o trabalho deve ser usado. Não se faz mais ou menos jornalismo hoje em dia em função dos avanços tecnológicos, a diferença é que as informações ganham maior visibilidade”.

Como exemplo, ele comenta sobre o jornalismo nas regiões do Centro-Oeste que visitou para o “Brasil de Bombachas”. “A televisão só transmite notícias do leste do Brasil. O oeste só entra na televisão por fatos extraordinários. Tá acontecendo muita coisa lá. Cidades pequenas naquele sertão fazem uso do jornalismo online como principal fonte de informação local. Sites e rádios locais fazem muito sucesso e são a principal fonte de informação da população”.

Wagner é uma pessoa muito simples. Isso transparece na conversa. Entre uma pauta e outra, um mate e outro, o repórter sempre tem uma história inusitada para contar. Ele viaja muito para realizar suas reportagens, mas quando está em casa diz que costuma apenas “torrar a paciência do pessoal”. Casado há cinco anos com a veterinária Saionara, tem um filho de quatro anos chamado José. Além disso, tem outras duas filhas: Carolina, de 25 anos, e Laura, de 20. Este é seu quarto casamento. Um apreciador de um belo churrasco, Wagner defende que não precisa muito para ficar feliz. “Nunca fui acostumado com muita coisa”.

Esse seu jeito descontraído e próximo ajuda a construir matérias carregadas de histórias pessoais. Enquanto se conversa com ele na redação do jornal, vários colegas fazem brincadeiras. “Não acredita no velho, ele adora inventar histórias”, caçoa um jornalista. “Sempre que temos uma pauta difícil, daquelas que ninguém consegue fazer, o Wagner é que acaba resolvendo. Ele consegue extrair as melhores histórias e encontra gente que já nem se contava mais ser possível achar”, explica outra colega.

Isso está claro na postura do repórter. “Ser transparente. Isso ganha a confiança do teu entrevistado. Nunca queira ser mais importante que a pessoa com quem você conversa”. Esse é Carlos Wagner, um homem simples, mas com muita experiência no que faz, capaz de descobrir e contar grandes histórias como se fosse um amigo de longa data dividindo um amargo em um fim de tarde.

Última atualização em Ter, 18 de Outubro de 2011 15:57