Inicial Perfis

20 -April -2018 - 11:35
Farid Germano Filho e sua entrada no rádio gaúcho PDF Imprimir E-mail
Escrito por Guilherme Sumariva   
Seg, 10 de Outubro de 2011 18:19

- Minha ligação com Cachoeira do Sul, em termos de familiares, e...
- Agora vocês podem começar, o áudio está ok.
- De novo, Luciano?
- Ah, eu não...

Agora, na terceira tentativa, a entrevista ia realmente começar. Estávamos no estúdio do Hoje em Dia, da Record gaúcha, e Farid Germano Filho começava a se irritar em ter que falar de suas origens uma terceira vez. Depois de repetir que é natural de Porto Alegre, nascido no ano de 1966, que sua mãe lhe deu a luz no hospital Beneficência Portuguesa e falar sobre sua amada terra de Cachoeira do Sul, seu tom de voz se tornou calmo e firme, como de costume. De qualquer maneira, eu deveria ter testado os microfones antes.

- Tu me perguntaste o porquê da minha ligação com Cachoeira. Cachoeira, minha linda Cachoeira, terra dos meus queridos e inesquecíveis avós Taufik e Nagibe. Terra do meu pai, tios e muitos primos, para onde muitos finais de semana eu viajava.

Cachoeira do Sul, terra do estádio Joaquim Vidal, conhecido como “A Bomboneira Gaúcha”, do Esporte Clube São José, time que Farid afirma ser difícil de ser derrotado por um visitante.

- Lá nós ganhamos na bola ou no bafo!

Cachoeira do Sul não tem apenas um time para Farid Germano Filho, mas sim as suas raízes. É descendente sírio-libanês, do avô Taufik libanês e da avó Nagibe síria, além de possuir sangue italiano por parte de sua falecida mãe. Cachoeira do Sul também foi muito presente na sua infância, que não teve muitos luxos, mas em que nunca lhe faltara nada. Seus pais eram muito presentes, tanto na sua vida quanto na das outras duas irmãs, família em que ele era o caçula.

Sua infância sempre foi conectada ao esporte. Cresceu jogando botão e futebol com os amigos da ACM, além de praticar basquete e natação. Tinha também suas peladas com o time da Cidade Baixa, bairro em que viveu a maior parte da vida, onde normalmente o jogo terminava em confusão. Isso quando tinha 11 anos de idade.

- Tu já tinhas um espirito competitivo então?

- Sim, sempre gostei de competir, e isso, talvez, tenha me levado a minha profissão.

Farid possuía no sangue a conexão com o esporte e com o jornalismo. Seu pai, Farid Germano, foi o primeiro narrador esportivo da Rádio Gaúcha a fazer uma transmissão interestadual de uma partida de futebol, na década de 40, Grêmio e Vasco no estádio São Januário. Época em que não existia retorno de áudio, e não era possível saber se a transmissão era recebida.

- Meu pai fez várias narrações no voo cego. Quando chegava ao hotel, duas ou três horas depois recebia um telegrama parabenizando-o pela boa transmissão. Isso quando não recebia um telegrama dizendo: “lamentavelmente, o áudio não chegou a Porto Alegre”.

A conexão de seu pai não era apenas com o esporte, nao era apenas com a narração. Farid Germano também foi vice-presidente do Jockey Club do Rio Grande do Sul e do grande Cruzeiro de Porto Alegre, time que ,em seu auge, foi concorrente da dupla Gre-nal, e não menos importante: foi diretor da Federação Gaúcha de Futebol. Graduado em Direito, aposentou-se como procurador do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul.

- Tu achas que o fato de teu pai ter cursado Direito te influenciou a cursar quatro semestres de Sociologia?

- Minha família sempre foi ligada à política. Eu tenho um primo deputado federal e um tio que foi vice-governador do Estado. Isso me levou a querer conhecer mais da sociedade, dos costumes, dos hábitos... Só que eu enchi o saco. Eu tinha duas alternativas: ou me tornava um sociólogo historiador ou sociólogo professor. E como eu não me vejo nem historiador nem professor...

Logo que reviu suas expectativas com o curso, prestou vestibular para Jornalismo na PUC/RS, onde já cursava a Sociologia. No seu novo curso, teve como grande ícone e incentivador o professor Antonio Gonzales, que foi também por muitos anos presidente da ARI (Associação Rio-grandense de Imprensa).

Antes mesmo de começar o seu curso de jornalismo, Farid Germano Filho já trabalhava como correspondente esportivo para a rádio Fandango, de Cachoeira do Sul e para a TV Tarobá ,da cidade de Cascavel, no Paraná.

- Tudo que tu fazes na vida soma. Tudo que tu vieres a aprender vai te trazer um novo conhecimento. Isso tudo foi muito importante para mim.

Logo no primeiro semestre de jornalismo ,olhou na Zero Hora um anúncio, que guarda até hoje, da Rádio Gaucha, que selecionava estagiários – em forma de concurso público – para ocuparem três vagas: uma na produção, uma na reportagem e outra na redação. O concurso recebeu 600 pretendentes. Os participantes passaram por um mês de provas quase diárias para serem aprovados. Farid não acreditava que passaria no concurso. Passadas as provas, deram-lhe a noticia por telefone de que ele havia passado. Nesse concurso, além de Farid, foram aprovados Roberto Villar e Nando Gross, profissionais reconhecidos no âmbito jornalístico.

Inicialmente, Farid deveria ir para a área de produção, apesar de ter se inscrito para a reportagem, junto dos outros dois aprovados. No fim, Roberto Villar ficou na área da redação e Nando Gross, que já tinha experiência de rádio, pois tinha trabalhado na extinta Rádio Sucesso, aceitou fazer o seu estágio na produção, deixando o caminho livre para Farid. Apesar de ter se tornado um estagiário de reportagem, Farid fazia apenas reportagens internas.

- Para falar ao microfone e ir ao ar não era fácil. Não essa barbada que é hoje, em que qualquer estagiário sai falando, ancorando programa e fazendo reportagem.

Mas Farid não se contentava com pouco. Ser estagiário da Rádio Gaúcha não era o bastante. Em 1989, ano em que o ex-presidente Collor de Melo havia se elegido presidente da república, houve um confronto entre os pró-Collor e uma carreata da CUT. Nesse momento, Armindo Antônio Ranzolin, diretor da rádio, disse para Farid realizar sua estreia nesse evento. Farid não recusou a proposta e seguiu com o proposto. Ao chegar com a unidade móvel, o equipamento estragou.

- Eu pensava: é a primeira vez que eu vou aparecer, isso não pode acontecer. E aí, o que eu fiz? Olhei e vi que havia um orelhão, a uns 30 metros da nossa unidade móvel. Eu disse para o motorista que eu iria lá, ainda que o motorista dissesse para eu não ir, em função da chuva de pedras do conflito.

No instante em que decidiu ir, uma criança largou da mão de sua mãe e correu para o epicentro do conflito. Em um reflexo, Farid se jogou em cima da criança e a devolveu para sua mãe. Logo que chegou ao telefone público, ligou para a rádio e começou a descrever – ao vivo – tudo o que acontecia na frente de seus olhos. Para piorar a situação, a ligação cai e o telefone não consegue mais fazer ligação alguma. Não vendo alternativa, entrou em um prédio comercial e pediu para os donos de um escritório de advocacia para que lhe deixassem fazer uma ligação a cobrar, em troca de falar o nome do consultório para fins de divulgação. Depois de re-estabelecer a conexão com a rádio, ficou quase três horas relatando o caso.

Logo após o fim do conflito, foi calculado que 15 pessoas haviam ficado gravemente feridas. Farid teve, então, a ideia de seguir para o Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre para continuar com a história que começou. Sem ser requisitado. Ao chegar ao hospital, encontrou um telefônico público e começou a relatar o que via.

- Esse foi o momento que te marcou como jornalista?

- Foi. Foi a primeira vez que entrei no ar na Rádio Gaúcha. Aí então, quando eu voltei na rádio, no outro dia, porque saí do hospital depois das dez horas da noite, o Ranzolin me disse: “agora tu vais ser repórter como todos os outros, mesmo sendo estagiário”.

Devido ao seu triunfo, foi alvo de inveja, tanto por colegas como por professores.

- Aí tinham professores que, talvez frustrados, por nunca terem trabalhado em um veículo de comunicação...

- Talvez pelo tamanho que era (e é)...

- Não, mas não interessa! Uns caras frustrados, que se tornaram burocratas da comunicação. Começaram a me ferrar. Eu pedia para fazer uma prova em outro dia e não me deixavam e etc. Mas eu fui aguentado tudo no peito.

- E essa faculdade levou o tempo normal para ser concluída?

- Não, cinco anos e meio.

- Tu achas que foi em função disso?

- Sim.

Mesmo com dificuldades, Farid não desistiu. Tornou-se repórter setorista de política no Palácio Piratini e na Assembleia, apesar de sempre desejar trabalhar com o esporte. Depois de muita resistência por parte do Ranzolin, que desejava que Farid ficasse no jornalismo geral, cedeu aos pedidos e colocou Farid na área esportiva. Mas não o tirou da área da política.

- Então, o que acontecia, Guilherme, eu fazia de manhã o esporte, de tarde a Assembleia e o Palácio e de noite ia para a faculdade. E quando tinha jogo, eu não ia à aula para cobrir o jogo. Trocava a roupa no carro mesmo, porque na Assembleia tinha que trabalhar de terno. Colocava um abrigo e ia para o jogo.

- E tu acompanhavas um time, certo?

- Não, os dois, sempre os dois.

Poderíamos ficar mais horas e horas falando sobre a sua história no rádio, mas o tempo era curto, pois o programa Cidade Alerta iria começar em alguns minutos e os microfones precisavam ser liberados para que o repórter, quando fosse chamado em rede nacional, pudesse falar. Percebi que Farid se sentiu entusiasmado e honrado com a ideia de receber uma homenagem em um perfil. Mais do que merecida.

Última atualização em Ter, 18 de Outubro de 2011 15:51