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Um dia na vida de um ajudante PDF Imprimir E-mail
Escrito por Gabriela Grapiglia   
Seg, 10 de Outubro de 2011 18:17

Éder Livramento acorda bem cedo, igual a quase todos os dias da semana, e come apenas frutas antes de ir para o trabalho, já que não gosta de nada pesado no café da manhã. Enche sua mochila com computador, roupas, livros, tudo que vai precisar para a jornada de 10 horas de trabalho e sai para a rua. É mais um longo dia e uma longa caminhada sob a vigília de uma manhã do "invernico" porto-alegrense, mas ele não pode estar mais feliz. Aos trinta anos, finalmente comprou sua casa com o dinheiro de três anos de economia, graças a seu trabalho na profissão que mais ama e com que mais sonhou na vida: a de professor.

Quando jovem, Éder via seus objetivos muito claramente. Lá ao fundo estava "tornar o mundo um lugar melhor", mas isso não significava que ele não visse, logo a sua frente, o caminho a trilhar. Seu primeiro objetivo era estudar para passar no vestibular para Geografia, na UFRGS. Por que Geografia? "Geografia trabalhava com política, economia, uma série de coisas que não se limitam muito," disse. "Por exemplo, tu podes, no meio de uma aula de matemática, parar e falar mil coisas, mas eu acho que, numa aula de geografia, é mais fácil de abranger muitos assuntos, passar um pouco da minha experiência de mundo." Completado esse objetivo de ingressar na universidade, Éder sabia que havia mais chão à frente. "'Eu sei que tenho que me formar,'" lembra-se, pensando, "'e eu quero sair daqui com um bom trabalho'. “Então ,tudo que eu fazia dentro da faculdade já era projetando isso," comenta. Não só por conta do dinheiro, mas ele sabia que queria ter ao menos uma vida confortável, e para tal precisaria se destacar  no plano da carreira de professor.

"Só que nesse roteiro todo não tava o Yôga dentro...", ri. Um ano depois de começar a faculdade, começou também a estudar para se formar instrutor do Método DeRose. Éder diz que sempre gostou de ensinamentos orientais, e relembra que, quando criança, via aquilo tudo na sessão da tarde -- era o filme Karate Kid, um famoso exemplo de toda aquela disciplina e respeito típicos da cultura oriental que se vê nas artes marciais, por exemplo, e que ele encontrou no Yôga. "Quando eu escolhi a profissão que eu queria," conta, "eu não escolhi pela profissão específica, eu escolhi pelo objetivo final do curso, que é ensinar. Eu queria ensinar alguma coisa. Só faltava escolher o que que eu ia ensinar. Eu adoro ensinar." Aos poucos, Éder começou a, como ele mesmo disse, "mudar de rumo". Não tanto que o afastasse de seu ideal, pelo contrário. Ele descobriu, durante os estudos da filosofia prática oriental, que com o Yôga poderia, também, passar suas experiências, ensinar, e ajudar cada um na sua jornada pessoal; talvez até de forma mais direta e certeira, já que a proposta do Método, a seu ver, é "levar uma pessoa que já é boa e torná-la melhor ainda". "É potencializar todas as virtudes, todas as qualidades da pessoa, fazer dela melhor do que ela já é," complementa. Acabou formando-se como instrutor antes de terminar a faculdade.

Tomar todas essas decisões sozinho não é fácil, e é claro que Éder também queria que seus pais tivessem orgulho de si por conta do que o filho fizesse. Começou a aprender a se virar um pouco ao dividir um apartamento com um amigo e o irmão, até aí bancado pelos pais, e mais tarde, quando começou a estagiar, alugou um cantinho por conta própria. Esse desprendimento - quer seja total ou  relativo - dos pais o ajudou e muito a entendê-los e a amadurecer; e com isso logo surgiu o sonho de ter sua própria casa, comprada com seu dinheiro, aquela vontade de se tornar totalmente independente. "Não desmerecendo quem ganha uma casa do pai, porque, pô, se meu pai pudesse me dar uma casa, eu não teria que tá trabalhando tanto," ri. Nisso, procurou um emprego e, assim que conseguiu, passou a investir tempo, vontade e sonho na sua casa. A oportunidade surgiu em menos tempo do que planejava. "Quando é aluguel, você compra as coisas pra casa, mas você sabe que aquilo ali não vai ser pro resto da vida, na teoria," comenta. "Só quem trabalha e sobrevive do seu trabalho e alcança esse objetivo vai saber o gostinho de ter sua 'caverninha', digamos assim."

Para Éder, a vida é um objetivo e uma escolha atrás da outra, e ele não se surpreende tanto com a conquista da casa - e nem ao menos se sente sem objetivos agora que a conseguiu -, já que sempre enxergou e buscou um destino mais ao longe,por mais impossível que seja, mas que o guiou para a felicidade -- ou ao menos o "tentar ser feliz". "Essas coisas acabam te dando um norte na vida," explica. "Porque se você não tem pelo quê lutar... A gente vive de motivação, acho eu, e é legal ter um norte. Tipo, o que você tá fazendo pro mundo? Essas coisas bem idiotas, mas que te dão um norte incrível," vislumbra. "Você começa a fazer escolhas... Pode ser, sei lá, um objetivo para o qual você tenha uma meta de uns dez anos. Mas você faz escolhas durante todo o seu dia, e durante aquele ano, várias escolhas que direcionam para esse norte. Por mais que tenham outras pequenas escolhas, tem uma escolha maior, que, pra mim, era a casa. E eu tinha projetado isso pra mais ou menos uns sete, oito anos. Não significa que vai durar sete anos, dez anos. Eu tinha projetado uns sete anos... demorou três! Isso é legal," motiva. "Foi assim, muito mais rápido do que eu pensava, porque eu trabalhava e tinha um certo direcionamento. E agora que eu já tenho a casa, começo a projetar outra coisa. O que eu quero depois da casa?...", divaga.

Éder já sabe o que quer agora. Quer ser professor do Método, mas ainda tem mais alguns anos de estudo para se formar como tal. No momento, ele trabalha como instrutor assistente. À parte disso, Éder se vê não como um exemplo notável, norte de muitos para o que é um agente responsável pelo mundo; mas sim como um ajudante, que gostaria de aperfeiçoar a vida e melhorar a vivência de todos. Alguém que não força, não empurra a uma direção melhor, e não pede nada em troca ao mundo e a todos ao seu redor pela ajuda que oferece - sempre maior do que era de se esperar. "Existem várias maneiras de ajudar o mundo," aconselha sorrindo, "e essa é a maneira que eu achei. Eu acho mais fácil de fazer assim...eu acho."

Última atualização em Ter, 18 de Outubro de 2011 15:52