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Guerrinha: um homem de valores PDF Imprimir E-mail
Escrito por Douglas Bernardt   
Seg, 10 de Outubro de 2011 18:15

Era uma tarde chuvosa de outono, e lá estava eu completamente encharcado e perdido no meio da Zero Hora. Meu pressentimento sobre aquela entrevista, que foi marcada às pressas, por email e sem horário definido, era o pior possível. Ainda mais considerando que era um dos dias mais conturbados do ano para Adroaldo Guerra Filho, mais conhecido como Guerrinha, pois ele estava envolvido em uma polêmica com o treinador do Internacional, Paulo Roberto Falcão, e durante toda a manhã foi indagado sobre o assunto.

Eu aguardava pelo Guerrinha em uma pequena sala de espera na redação do Diário do Gaúcho e de lá conseguia ouvir tudo o que ele falava ao telefone. O clima esquentava na conversa do outro lado da parede, quando, de repente, ouço um urro: “ERA SÓ O QUE ME FALTAVA SER TACHADO DE FOFOQUEIRO”, isso me deu certeza de que a entrevista não ocorreria do modo como eu esperava. Eis que então abre a porta um senhor com seus quase 60 anos, dando um enorme sorriso de dentes amarelados, esbanjando simpatia desde o primeiro momento e contrariando minhas expectativas. Sentamo-nos à mesa, pedimos dois cafezinhos, liguei o gravador e o papo começou a fluir tão naturalmente que parecia um amigo de longa data sentado à minha frente. Conhecido dentro do jornalismo esportivo pela sua credibilidade e atenção aos detalhes, foquei nossa conversa em como foi o início de sua carreira e como ele conquistou respeito durante a construção da sua trajetória profissional.

“Para muitos é difícil se lembrar do começo, mas pra mim é muito fácil, porque eu comecei fazendo o que eu gostava (...)" com essas palavras Guerrinha respondeu a minha primeira pergunta. Ele começou sua carreira no jornalismo influenciado pelo pai, que era radialista, vivendo com a agitação das redações e estúdios desde muito cedo. Com 17 anos já cobria corridas de turfe para o jornal Hoje. “Eu era apaixonado por cavalos e por corridas,, e ninguém se prestava pra acordar de madrugada ir ver os bichos treinar. Na época, o turfe estava em alta aqui na cidade, o hipódromo era um lugar frequentado por muitos, isso fez com que eu me destacasse rápido (...) “.
Ele ficou no turfe durante 16 anos, saiu do Hoje e foi trabalhar no Correio do Povo e em outros periódicos da Caldas Júnior antes de ir para a Zero Hora em 1993.

“Em 1994, a RBS fechou a parte direcionada ao turfe, e os chefões não sabiam o que fazer com esse maluco aqui, que gostava do fedor de cavalo e de acordar às 5 da manhã. “Pegaram” e simplesmente me jogaram no futebol, acharam que iam me ferrar, mas eu adorava futebol.”, contou Guerrinha como foi parar no mundo em que hoje é extremamente conceituado. Os anos foram passando e ele teve experiências incríveis, trabalhou no programa de Paulo Roberto Falcão – ao falar sobre isso sua expressão irônica era digna de foto - e conheceu empresários, jogadores e jornalistas do meio, e nesse momento, convivendo com grandes nomes do futebol, sua credibilidade começou a ser adquirida.

“Eu aprendi que o jornalista nunca deve ser maior que a notícia, se eu for brigar com as notícias eu viro um fofoqueiro, e a coisa que mais me deixa puto é quando dizem que eu tô fazendo fofoca”.  Qualquer entendedor de futebol respeita Guerrinha, ele é um jornalista que vê o esporte com os olhos e não com o coração. Mesmo nunca tendo escondido sua paixão pelo Internacional, sua imparcialidade é inquestionável e suas críticas estão sempre baseadas em fatos verídicos. “Sempre ponho a razão na frente da emoção, se eu falo pouco nos programas de que eu participo é porque eu penso muito antes de dizer algo que possa atingir alguém”. Levantamos e fomos buscar outro cafezinho. Já tinham se passado duas horas e lá fora a chuva havia estiado, mas a última coisa que me passava pela cabeça era ir embora.

Cruzamos a redação e algumas pequenas atitudes me fizeram entender por que tamanho respeito, todos apertavam sua mão e perguntavam sobre o caso Falcão e, muito atencioso, ele respondia a todos calmamente. Voltamos para a sala onde a entrevista estava sendo realizada e eu lhe pedi para que me contasse um fato marcante, que no seu ponto de vista tivesse sido fundamental para a construção da sua credibilidade e respeito. Guerrinha me contou que, certa vez, recebeu a ligação do empresário de uma jovem promessa gremista, pedindo para que ele comentasse positivamente sobre o garoto – mesmo sem nunca ter jogado uma única partida pelo time profissional – no programa Sala de Redação e em sua coluna no jornal e, em troca, receberia uma bela quantia em dinheiro. A proposta foi recusada de imediato: “Essa chantagem circulou entre a boca dos maiores cartolas do futebol gaúcho e nacional, o que o cara tinha me oferecido não era pouca coisa. Muita gente me ligou elogiando e prestigiando minha atitude. Acho que perder dinheiro foi uma das melhores coisas que eu já fiz na vida”, contou ele, dando gargalhadas.

Para terminar a entrevista, perguntei qual era o veículo que mais lhe agradava trabalhar e, sem hesitar, ele respondeu que não trocaria sua coluna diária no Diário Gaúcho por nada e que sua paixão pelo jornal impresso era muito grande. “No jornal eu tenho a possibilidade de me expressar da melhor maneira possível, posso voltar atrás ler e reler o que escrevi antes de publicar.”

Desliguei o gravador, apertei sua mão e saí da sala. Lá fora, ninguém mais ninguém menos que Lasier Martins o esperava, e seu sorriso receptivo foi exatamente igual ao que ele deu quando me viu todo molhado na sala de espera, mostrando que um homem de intensa rotina, que já esteve nos mais altos cargos de todos os meios de comunicação, com todos os motivos para ser mais um jornalista arrogante e inacessível, pode  transparecer seus valores de simplicidade e humildade para todos da mesma forma.

Última atualização em Ter, 18 de Outubro de 2011 15:37