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23 -January -2018 - 21:55
O segredo de “Todas as formas” PDF Imprimir E-mail
Escrito por Bruna Rohleder   
Qua, 14 de Maio de 2014 19:04

“Todas as formas” é o tema da exposição de Mariana Riera no Espaço Cultural ESPM-Sul. A visitação ao projeto artístico é do dia 29 de março a 10 de maio de 2014, segundas a sextas das 8h às 20h, e aos sábados das 9h às 15h. A maior atração desse evento são os desenhos faciais de pessoas conhecidas de Riera, em que estes pertencem a um conjunto de trabalhos que ela fez nos últimos três anos.

Quando entrei na exposição, tentei procurar logo a dedicatória do curador para entender as obras de Mariana. O texto foi escrito por Marilice Corona em 2014 e tinha como título “O Impulso Amoroso”. A linguagem textual é um pouco confusa, e é perceptível que a curadora escreveu para os “conhecedores” de arte, para os próprios profissionais ou amantes de artes plásticas, pois o linguajar era técnico. Corona inicia o texto com a narração de um mito que explica a origem da representação artística de todos os campos com a ideia de trazer a importância da arte para a vida da sociedade. Ainda, já tendo como foco a obra da artista, ela ressaltou que “impulso amoroso” é um aspecto essencial dos desenhos de Mariana Riera. Marilice, então, chama as obras da artista de “Desenho Amoroso”, referindo-se à fonte das figuras dos retratos – que são íntimos e pessoais – e a dedicação da linguagem de “Todas as formas”.  

O que eu posso falar dos desenhos de Mariana Riera? Eles são impactantes, no entanto, não atraem a atenção do público. E como isso é possível? As pessoas que posaram para os retratos estão ou com os olhos fechados ou contemplando um lugar que não é visível no campo de visão do público. Elas são fontes não interessadas nos espectadores, e, por esse motivo, a exposição trás um ar de mistério. Ainda, Riera não colocou nenhuma explicação sobre os retratos, nem sequer os nomes das obras. Somos informados pela curadora que os modelos pertencentes às obras são pessoas muito próximas da artista, mas não se sabe qual relação elas têm com a Mariana. Isso me intrigou.

Uma observação técnica dos retratos da artista é que a cor branca não é inativa, como na maioria das obras artísticas, mas atuante nos desenhos porque as fontes não estão no meio do retrato, mas do centro para a extremidade. O tom esbranquiçado está na maior parte da obra. Essa característica mostra que Mariana não levou em consideração a “verticalidade” das obras. Além disso, a desenhista usa a técnica em pastel seco para fazer a sua arte. Segundo a curadora Marilice, a artista recolhe e guarda o pó que cai do chão durante o processo do desenho: “Estes ‘restos’ não são descartados, mas utilizados na criação de novos desenhos. Aqui nada se perde, tudo se transforma em representação, em presença.”

De toda a exposição de Mariana Riera, a obra que mais me chamou a atenção é da modelo que tem o nome de Letícia – esse nome foi mencionado pela curadora –. Não se sabe qual a relação que a fonte tem com a autora, mas ela é desenhada com muitos detalhes e traços específicos. Para mostrar a idade da modelo, por exemplo, Riera faz questão de destacar as “expressões do tempo” – as chamadas rugas – embaixo do nariz, que passa na bochecha ao lado dos lábios e termina antes de chegar ao queixo, e também traça aquelas que têm ao lado dos olhos. Ainda, a artista desenha as veias saltadas da mão e as pintas que dão aspecto de envelhecimento. É uma demonstração de maturidade dessa mulher. Porém, o que mais aparece no aspecto físico de Letícia é o olhar inexpressivo e a forma arredondada dos olhos da mulher, que é grande e de cor esverdeada. Embaixo desse olhar estão as olheiras escuras e profundas, e em cima, as sobrancelhas pretas e finas, de um desenho bem-acabado. Vale mencionar a blusa de crochê cinza de Letícia que tem um aspecto amassado, e o seu cabelo, caindo sob os ombros à blusa, é de tom castanho com fios brancos, vermelhos e amarelos.

Mariana quer mostrar ao espectador que a obra “Letícia” vai além do campo visual do público. A artista desenha um pequeno espelho redondo na mão esquerda da fonte e, da posição do objeto, é possível ver a parte lateral do rosto dela, como a orelha, a pele e um pouco do cabelo. Letícia aperta o espelhinho com força, pois o dedo polegar está sendo profundamente apertado por causa da pele inchada e branqueada. E então vêm as perguntas sobre o contexto do retrato: Por que essa mulher está com um espelho? E porque ela não posicionou o objeto à frente do seu rosto? Sabemos que a artista queria usar o espelho para mostrar outro ângulo da modelo Letícia, mas não se sabe o porquê dela estar segurando esse específico objeto.

O mais interessante da arte é que o autor, que é por natureza profundo e misterioso, tem uma explicação para a criação e a finalidade de suas obras – ou talvez não. Serve a nós, espectadores, porém, ter as nossas próprias concepções sobre elas. O artista faz a obra e nós a usufruímos. Letícia é a mãe de Mariana Riera? Não se sabe a resposta. O propósito de Riera, possivelmente, não era de explicar os retratos, mas de deixar o público entender da sua maneira. Agora, cabe a você ir até lá e tirar as suas próprias conclusões.

Última atualização em Qui, 28 de Agosto de 2014 18:04