Inicial Sala de Aula

25 -September -2018 - 11:40
"Por que sim" não é resposta PDF Imprimir E-mail
Escrito por Gabriela Grapiglia   
Seg, 30 de Maio de 2011 16:12

É impressionante como as pessoas morrem de medo da gramática. Morrem de medo de português. Morrem de medo da própria língua materna. Deve ser complicado ter uma relação tão conturbada com sua língua materna, aquela com a qual aprendemos a falar, com a qual geralmente pensamos e com a qual deveríamos ter maior facilidade do que qualquer outra. No último dia 2 de abril, foram entrevistadas cerca de 25 pessoas num shopping da capital, todas de faixas etárias e classes sociais completamente diversas. Questionadas sobre seus conhecimentos sobre linguística e gramática e suas diferenças, elas responderam de forma hesitante. O resultado serviu para desvendar o preconceito velado que se faz àquelas pessoas cuja fala não segue exatamente a sonoridade com a qual o entrevistado estava acostumado.

Ao serem questionados sobre a correção de frases como "eu não tô me sentindo bem" e "nóis vai no supermercado", que certamente são utilizadas, ou ao menos ouvidas, todos os dias, pelos entrevistados sem causar nos mesmos aquela sensação de ter "assassinado o português", todos se esquivavam e condenavam, até mesmo uma garotinha de 11 anos:

"Na verdade, eu não aprendi no colégio isso. O 'nóis vai' tá errado." Ela é acompanhada por muitas pessoas com quatro vezes sua idade e instrução, e frases - ironicamente "incorretas", considerando o julgamento de nossos entrevistados - como "agora tu me pegou" e "acho que tá errada" foram frequentes respostas. Ao que parece, todos reconhecem em si o indivíduo que fala esses "dialetos da língua falada", mas, frente a uma câmera, um gravador, um registro passível de julgamento, só o que se veem é o olhar austero de uma professora de português, o símbolo da "gramatichata" (os ecochatos já têm têm um rival) gravado no inconsciente coletivo, de quem queremos, ao menos uma vez, arrancar um sorriso. No fim das contas, os gramáticos conseguiram aterrorizar a população como o padre que anuncia o apocalipse, mas dá uma opção para revertê-lo: parece que contrariar a gramática é pecado capital sob qualquer circunstância, quase um ato de egoísmo que ocasionará a corrosão da sociedade como um todo, impedindo a "salvação". Portanto, há de se ter essa relação um tanto "amor-e-ódio" com algo que se teme e acata dadas as circunstâncias.

Mas você pode ser um daqueles a se perguntar, em silêncio, se linguística é alguma coisa da qual você se lembra ter visto no colégio - até com um certo receio, o eterno receio --, e deixar isso quieto. Basicamente, linguística é outra ciência que estuda a língua, mas ao contrário da temida gramática, parte do ponto-de-vista do entendimento da mensagem expressa nas palavras e orações. Com isso, as frases acima citadas não estariam nem um pouco incorretas: afinal, se entende que uma pessoa não está passando bem e que as outras vão às compras. Convencido? Foi fácil de fazer os entrevistados logo entenderem e simpatizarem com a linguística (agora imaginamos crianças chegando em casa e contando para os pais que aprenderam uma coisa nova na escola hoje).

Não faço qualquer objeção à existência da gramática: ela serve como um código que modera a população e sua linguagem para que se mantenham no caminho do aprimoramento, sem desvirtuarem. O que não pode ocorrer é uma tachação do que é certo ou errado, porque, afinal, tudo depende do ambiente de convivência de um indivíduo: não é impossível que você fale algo que chama de "errado" sem perceber, diversas vezes ao dia. A linguagem, por mais "errada" que possa parecer, define os personagens do jogo, e não há nada melhor do que isso.

Última atualização em Seg, 25 de Agosto de 2014 17:18