Inicial Sala de Aula

17 -July -2018 - 12:31
O Caderno Laranja PDF Imprimir E-mail
Escrito por Gabriela Grapiglia   
Seg, 30 de Maio de 2011 16:01

Lembro-me bem de como era minha escola primária. Quando passávamos do Jardim de Infância, onde usávamos "caderninhos", para o Ensino Fundamental, fazia-se uma festa de turma: era o ritual de passagem para o "cadernão", como chamavam. Era tanta expectativa, que eu rememoro o zelo descabido que tinha por ele - folheava e folheava suas páginas ainda intactas, e levei um mês para achar a coragem (ou a covardia) para riscá-lo. Meu primeiro amor pelas folhas em branco de um caderno.

Foram muitos anos depois que, tendo lido alguns livros de fantasia, eu pensei em fazer o meu próprio, mas mais uma vez aquelas benditas folhas em branco não me deixavam seguir. Deixei várias ideias maravilhosas perdidas para trás, e quem quisesse as ter que as tivesse, escrever não era, afinal, um prazer para mim. Era antes um esforço, uma traição, e o fim da mágica do impossível de todas as histórias que eu empreitava. Então deixei para que a fantasia ficasse na minha própria cabeça, um segredo meu que não era dever da escrita compartilhar. Até que vivenciei outros rituais de passagem, tão comuns a todos que não convém citar, e troquei as fantasias por ideais.

Numa dessas, eu havia acabado de ler Sonho de Uma Noite de Verão e alguns livros sobre meditação, e daquilo, sem qualquer motivo racional, depreendi a ideia de me tornar vegetariana. Naquele mesmo dia (e era verão, a virada do ano, por sinal), eu tive um sonho como daqueles de fantasia da minha infância. Eu era uma personagem que se via obrigada a mudar para uma cidade do outro lado do mundo, morar com seu pai que nunca antes conhecera, e tudo isso a levava a uma história completamente mágica e surreal, em que ela descobria que não enxergava as pessoas da mesma forma que as outras, porque simplesmente era algo acima da humanidade.

Honestamente, pouco lembro do sonho, mas em compensação, do caderninho laranja que ela (eu) levava consigo, anotando tudo que vivenciava e principalmente poesia, nada me escapou. Isso me remeteu a duas coisas, dois cadernos que então eu me arrependi de quase deixar em branco: meu diário, para o que nunca tive a paciência, e meu caderno de poesias, para o qual nunca tive a inspiração.

Segui escrevendo essa estória, preenchendo os buracos que o sonho não me deu, e continuei no vegetarianismo ao mesmo tempo em que minha mãe me sugeriu praticar Yôga como melhor maneira de aprender a meditar, um dia, quem sabe. De alguma forma aquele sonho parecera algo tão certo, me mostrou algo que desta vez eu estava disposta a fazer, algo que me disse que minha nova resolução iria mudar minha vida para sempre, e para melhor. Quase como que, de repente, as páginas em branco do meu futuro não mais me intimassem, e sim me motivassem a escrever nelas. Nelas eu iria contar a minha história, eu seria a autora da minha própria história, e neste futuro estava incluída a publicação de um livro, a estória de um caderno laranja.

Com as metáforas que a minha vida me deu -- pois cada um tem as suas --, eu percebi que não nos convém mudar o caderno, quem nós somos a fundo, mas sim encontrar a coragem para macular as páginas do mesmo, e se permitir a leitura de outros. Eu mesma fui convidada a não fugir do caminho que estou traçando: no ano novo de dois anos depois, recebi um presente de um amigo secreto na minha Escola de Yôga, que nem sabia meu nome. E, ao ver aquele pequeno caderninho laranja sair de dentro da caixa, sorri de todas as formas possíveis. Esta era a minha história real, tão fantástica quanto as com que sonhava, em que nenhum dos deuses e demônios que povoavam minha mente na infância iriam interferir.

Última atualização em Seg, 25 de Agosto de 2014 17:15