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O universo de linguagens da língua portuguesa PDF Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Guilherme Alberto   
Seg, 30 de Maio de 2011 15:36

A língua portuguesa é um universo de linguagens. Línguas nascem e morrem junto com seus falantes. Mesmo assim, o mais comum é o entendimento de que existe uma língua padrão, uma norma culta que rege o uso que se faz do idioma. A linguística, ciência que busca compreender a língua com as alterações que são observadas na linguagem, como regionalismos, gírias e coloquialismos, traz uma concepção diferente. Ela estuda as variações dentro do idioma e defende que o importante é que haja comunicação, que a mensagem passada faça sentido.

Com a finalidade de observar como as pessoas compreendem e utilizam a língua, os alunos da primeira turma de jornalismo da ESPM-Sul realizaram uma série de entrevistas. O objetivo foi ilustrar os conceitos que envolvem o estudo das visões de língua discutidas na disciplina de Linguagem Jornalística I, ministrada pela Professora Eveli Seganfredo.

A turma foi dividida em grupos para a realização do trabalho. No grupo integrado pelos alunos Luiz Guilherme Alberto, Caroline Pinheiro, Desirée Ferreira e Renata Medeiros, primeiramente estruturou-se uma visão de gramática normativa e de linguística descritiva, para que assim pudessem ser organizadas as entrevistas que seriam realizadas.

O entendimento foi de que a gramática normativa é um conjunto de regras que não permite elasticidade entre o que se fala e o que se escreve. É preciso estar de acordo com o que está prescrito na norma culta para que seja considerado adequado o uso da língua. A linguística descritiva, todavia, incorpora as variedades da língua portuguesa, que diferem da gramática defendida como norma culta. Nesse campo de estudo, podem ser observadas diversas formas de uso da língua, que variam conforme espaço, tempo, pessoa e situação de linguagem.

A partir desses conceitos, os alunos organizaram questões para demonstrar as variadas visões de língua, a existência de língua padrão e não-padrão e, ainda, a noção de erro na gramática culta e na linguística.

As entrevistas foram feitas, em sua maioria, no shopping Praia de Belas, em Porto Alegre. Sua primeira etapa foi voltada a fazer as pessoas compreenderem que o importante é que exista comunicação, que o interlocutor entenda o que está sendo dito. Tentou-se não conduzir as respostas, evitando-se o uso das expressões norma culta, gramática ou linguística nas perguntas iniciais.

Foi feito, então, o uso de uma frase com erros conforme a norma culta.  Perguntou-se se “Me empresta uma caneta para mim escrever” estava correto. Respostas inusitadas foram dadas. Houve preocupação com o conteúdo da sentença,, e não com sua forma, “escrever o quê? Tinha que dizer o que vai escrever”, questionou de volta Caio Andrade, 28 anos, advogado, que, intrigado com a possibilidade de a pergunta ser uma pegadinha, não deu importância para os erros gramaticais que poderiam estar embutidos ou com o fato de que bastava entender a mensagem passada.

Isadora Navarini, estudante de 18 anos, respondeu que estaria errada porque “me empresta pra mim é pleonasmo”. Já Annelise Riva, 17 anos, estudante de Nutrição, referiu que a frase estaria “errada, porque mim não conjuga verbo”. O interessante é que ambas ficaram focadas em encontrar erros gramaticais, problemas com a norma culta que estudaram na escola. Isso demonstra que a compreensão da frase, de seu sentido, não lhes pareceu relevante.
Na sequência, os entrevistados foram perguntados se o uso de gírias na redação do vestibular estaria incorreto. Caio respondeu que “os caras estão sendo examinados para entrarem numa universidade, onde se tem que falar direito e, escrever também”, demonstrando que é forte a crença de que existe apenas uma gramática e, que esta deve ser respeitada tanto no uso oral quanto no uso escrito da língua.

Realizadas estas duas questões, explicou-se aos entrevistados, sucintamente, os conceitos e as diferenças entre a gramática normativa e a linguística descritiva. Alguns reagiram com surpresa ao fato de existir uma ciência que estuda as variações linguísticas e que defende a importância do ato de comunicar fazer sentido. Ana Cláudia da Luz, farmacêutica, 30 anos,  questionou se “isso tá valendo agora, com essa história de reforma”, confundindo a reforma ortográfica ocorrida na língua portuguesa com a questão em foco. Foi explicado a ela que o uso de uma norma padrão ainda é o convencional nas escolas, em concursos públicos e que a linguística é uma ciência que apresenta visões diversas sobre o uso do idioma.

Foi esclarecido, também, que o erro é visto de modo diferente na gramática culta e na linguística. Na primeira, está errado o que não está prescrito ou o que não está de acordo com o que está prescrito, enquanto que, na segunda, erro é apenas o que não faz sentido.
Questionou-se, ainda, o motivo de a gramática estar tão distante do cotidiano e, a possibilidade de as variações linguísticas serem incorporadas ao estudo convencional da língua. Nesse momento, as respostas transpareceram quão arraigadas as pessoas estão à concepção de que existe apenas uma língua culta a ser seguida, embora façam uso de gramáticas e linguagens diversas em seu cotidiano.

Ana Cláudia confessou que “ninguém fala tudo certinho, mas também incorporar não, porque não teria sentido ter gramática então”. Sua colocação reforça o pensamento de que existe a necessidade de seguir a norma tanto no uso escrito como na fala. Isadora, por sua vez, referiu que “não deveria incorporar, porque senão ia ser mais confuso do que já é e nunca ia existir uma coisa errada”, evidenciando o fato de que erro é tido como aquilo que não está de acordo com a língua padrão culta.

Gleci Alves, 58 anos, professora de inglês, completou que “embora façamos vários usos do português, creio que não serão incorporadas as variações, mas saber que elas existem e, que há algo além da norma culta pode auxiliar as pessoas a se relacionarem melhor com sua língua”. Foi necessário conversar com uma professora, graduada em Letras, para ouvir sobre os temas estudados pela linguística.

Ficou evidente que não há muita ponderação em relação à linguagem e ao uso de nosso idioma. O interessante seria introduzir essa reflexão no seu estudo, permitindo aos estudantes reconhecer a existência de linguagens variadas no universo da língua portuguesa. Seria importante fazê-los compreender, ainda, que o português não é apenas aquele impresso nas gramáticas escolares, mas também as incontáveis formas de expressão que são usadas para se comunicar. Esse pensamento poderia, então, aproximar a língua da vida, não a deixando alheia, em um ambiente em que apenas alguns iluminados a dominam.

Última atualização em Seg, 25 de Agosto de 2014 16:37