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Está tudo uma merda PDF Imprimir E-mail
Escrito por Gabriela Grapiglia   
Seg, 30 de Maio de 2011 15:20

Não há nada mais fascinante do que conhecer certas pessoas. Certos loucos valem a pena. Foi assim conhecer o Lobão, famoso expoente da cena musical underground, termo preferido por ele mesmo, um daqueles indivíduos que não faz questão de esconder sua própria opinião, ao contrário da vasta maioria que inclui eu e você. Porque sim, todos nós temos um temperamento forte, opinativo e teimoso lá no fundo, julgamos tudo indiscriminadamente de antemão, porém, a maioria toma o cuidado de tolher-se, ou de apenas expressar suas ideias quando como forma de violentar os outros. Talvez nenhum dos dois casos se atribuia a ele. Mas talvez, também, essa seja só mais uma questão de ponto-de-vista.

Lobão esteve dando um, é, bem, um discurso eufórico para alguns alunos da ESPM-Sul em Porto Alegre, e, obviamente, levantou discussões nas salas de aula. Fora o seu jeito "gentil" de ser, não vejo em Lobão a intenção de instigar o ódio. Existem pessoas que nasceram para agradar aos outros como cachorrinhos, que são as desprezadas pelo músico que é, por sua vez, uma daquelas pessoas que não se importa mais com a reação alheia: não pretende agradar nem desagradar. Não há como saber se por ter inflado o ego a um ponto em que se julga acima do bem e do mal, ou por simplesmente ter se blindado ao mesmo.

O fato é que Lobão fez críticas a diversos músicos, inclusive alguns de sua época e até mesmo de seu movimento -- incluindo a si próprio naquilo que inevitavelmente catalogava como "merda" --, Tropicália, incluindo na sua análise genérica da música ao longo dos anos que viveram algumas bandas de meu agrado, como os Titãs, de quem sou fã de carteirinha desde criança por conta de meu pai. Como fã do rock n' roll, ao ser perguntado, se mostrou completamente avesso aos movimentos musicais puramente estéticos e plásticos, que, ao contrário desse primeiro, primam pela técnica musical e não pela proximidade com que consideram a terrível realidade:

"Eu vou ir logo cortando a tua ópera porque eu sei o que você vai falar", respondeu ao jornalista que pediu sua opinião sobre o movimento do rock progressivo neoclássico. "Nunca ouvi, mas isso é uma merda, tenho certeza."

Enquanto perdeu alguns pontos com a audiência presente ao criticar -- de leve, se comparando com suas demais críticas -- o respeitado e admirado movimento da Bossa Nova, ganhou muitos outros ao criticar o espaço que "artistas" conseguem na mídia para terem seus trabalhos de qualidade muito inferior à de algumas bandas underground que citou divulgados pelo simples fato de se deixarem ser marionetes, simpáticos com tudo e todos, agradarem criançinhas e se fazerem de bonzinhos, bobalhões e engraçados, opinião que é compartilhada pela maioria da classe que frequenta a Escola.

"O que são essas bandinhas 'teletubbies'?", falou, referindo-se às novas bandas pop brasileiras com suas roupas coloridas e jeito infantil de ser. Para ele, esse fenômeno nada mais é do que a réplica de outro evento como o que ocorrera com a Bossa Nova: uma importação completamente distorcida de algo que só funcionava para o lugar onde surgira. No caso do movimento de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a introspecção e estranheza de som importados da música dos guetos americanos da época, ganhou um ar de "bunda-molice" (segundo seus próprios termos) com letras que, na sua opinião, eram completamente fora do contexto do movimento em que se inspirava.

"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça'...", cantou, interpretando comicamente um trecho de Garota de Ipanema. "Pode ser bonitinho até, mas é de baixo calão, vai dizer!"

Lobão conclui que a causa desse "caos" que a arte brasileira enfrenta hoje provém de uma cultura social, antiga já, de mudos acomodados. Para ele, no Brasil, ninguém fala o que realmente pensa, todos querem agradar a todos com o intuito de se alçarem a uma posição melhor -- quando não precisarão mais tratar ninguém bem. Com isso, à medida que os anos foram passando sem mudanças, a situação só piorou, e sempre se falará com mais saudosismo e mais admiração da geração mais antiga da classe, como se só de agora é que as coisas tivessem tomado essa configuração. Para ele, os problemas irão surgir, e conforme as tecnologias avançarem e mais brasileiros oportunistas se reproduzirem, caberá àqueles com mais coragem, ou às vezes, no seu caso, cara-de-pau, de opinar e pensar para fazer diferente. Como quando, para fugir dos preços altos que as gravadoras colocavam nos CDs, já que não eram ainda considerados material cultural e sofriam uma carga tributária pesada, afastando os compradores, ele e mais alguns artistas começaram a vender os CDs por um preço aceitável em conjunto com revistas, que eram beneficiadas nas tributações.

"No início, todo mundo começou a entrar no esquema", contou. "Depois que as gravadoras começaram a botar o olho, todo mundo caiu fora com medo."

Ao final do tempo, muitos alunos se sentiram aliviados por não precisar mais ouvir Lobão, e principalmente, para poder comentá-lo (e, na maioria das vezes, criticá-lo). Discursos opinativos sobre música e até sobre a liberdade, a etiqueta, o uso de palavras de baixo calão e a própria forma de se expressar eclodiram no intervalo, durante as aulas dos mais diversos cursos e disciplinas, e certamente fora do ambiente escolar, por uma semana toda. Não se ouviu falar de alguém que concordasse com o músico plenamente, em todos os aspectos, mas o resultado disso tudo é que Lobão conseguiu exatamente o que queria: mais brasileiros expressando sua opinião com força, vontade e sem medo de julgamento. É como dizem. Certos loucos valem a pena.


Última atualização em Seg, 25 de Agosto de 2014 15:53